A crise do tomate no Brasil

Os editores de jornais passaram anos a puxar pela cabeça para
encontrar uma imagem que simbolizasse com eficácia a inflação. Até
este ano. Ácido, encarnado e quotidiano, o tomate, cujo preço em
2013 está 120% mais alto do que em 2012, tornou-se a
representação mediática da inflação no Brasil.

E a inflação, já se sabe, é o maior trauma, economicamente
falando, dos brasileiros – nos anos 80 era de 300% ao ano,
só para dar um exemplo. Por isso o tomate anda a ser atirado à cara
do governo, que por sua vez o joga nas barbas da oposição, que
retribui novamente fazendo do país parecer uma grande Buñol, aquela
cidade espanhola onde se celebra a Tomatina (veja o vídeo).

O tomate é, de facto, uma das genuínas preocupações de Dilma
Rousseff. Com quase 80% de popularidade, a líder do governo
não se importa quando vê nos jornais as fotos dos potenciais
concorrentes às presidenciais de 2014 mas engole em seco a cada
tomate estampado nas primeiras páginas.

Sublinha a oposição, com os manuais de economia debaixo do
braço, que para combater a inflação – em rigor, a perda de poder
de compra da moeda – as medidas tradicionalmente mais eficazes são o
aumento dos juros, a restrição ao crédito e a contenção na
despesa pública. Ora, os juros baixos, o crédito elevado e o peso
do Estado na economia são os três temperos populistas da salada
económica da Era PT, como Aécio Neves ou Eduardo Campos, os
pré-candidatos oposicionistas, não se cansam de lembrar nos
jornais, normalmente ao lado de uma foto com tomates num camião TIR.

Os números estão do seu lado: a meta da inflação proposta pelo
governo era de 4,5% e já vai nuns sumarentos 6,59%. Mas o PT reage atribuindo a alta do preço do fotogénico
tomate a problemas na safra agrícola cujo pico foi no último
trimestre de 2012. Para o governo, a inflação não ficará
descontrolada. Defende a presidente que as aspirinas aplicadas –
como a diminuição dos impostos sobre os automóveis – e os planos
de longo prazo, como o aumento da produtividade
através da ampliação do programa de formação profissional, vão contê-la.

Mas e o povo, o povo para quem, supostamente, os candidatos falam,
o povo que tem o tomate em tão grande consideração?

Por causa do aumento – está ao preço da carne! – o tomate
anda meio desaparecido das casas dos brasileiros e até (heresia!) dos restaurantes italianos. Para o ver, só nas tais primeiras
páginas graças ao esforço criativo dos editores de jornais: ora
sozinho, ora em grupo, ora a sair da carteira de um cidadão como se
fosse a real moeda do país, ora à volta de um pescoço feminino
como se de uma pedra preciosa se tratasse, ora a ser desastradamente
pisado por uma incauta Dilma Rousseff. Humoristas e cartunistas
também abusaram do fruto-legume sem cair, no entanto, na piada fácil
e brejeira – até porque o tomate não tem nenhum duplo sentido por
aqui. Não tinha. Hoje tomate, em português do Brasil, significa
inflação e por isso nunca mais será digerido como dantes.

Jornalista

Crónicas de um português emigrado no Brasil

Escreve à quarta-feira

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