A crise dos cereais 

Há cereais de todos os tipo: de chocolate, de aveia, de chocolate e aveia, com chocolate e avelã, com amêndoas, mais crocantes ou menos crocantes, de mel, com frutos vermelhos e também com passas e eu sei lá mais o quê. Uns têm mais açúcar, outros menos, outros nenhum. Há uns que parecem bolachas mas não são. São autênticas sobremesas, é o que vos digo. Aquilo com um gelado de nata é uma sobremesa de festa. E há outros que sabem a serradura que são para as dietas.

Tenho filhos que gostam imenso de uns cereais de chocolate em forma de bagas de arroz, mas tenho lá outro que só come o Especial K de chocolate ou frutos vermelhos, desde pequenino. Só há um que não toca em cereais - é uma. Os cereais simples, só de trigo, aqueles do tempo da Flora, da inflação e do Cavaco, ninguém come. Também os que têm mel, em forma de bolinhas, não têm muita saída - são enjoativos, dizem eles já com a medula carregadinha de açúcar.

O meu amigo Rui, que teve filhos muito antes de mim e que os soube educar muito melhor do eu, misturava os cereais e punha todos numa caixa própria: metade cornflakes de marca branca e metade de chocolate também de marca branca. Poupava uns valentes euros, dizia ele, com a mistura porque quanto mais chocolate levavam mais caros eram os cereais, e as criança comiam muito menos açúcar todas as manhãs. E só ao pequeno-almoço é que era permitido comer cereais naquela casa. Também tento misturar, mas não tenho a disciplina do meu amigo e os meus filhos não têm medo de mim e comem cereais ao lanche.

(Também fazia outra coisa que revela o quão genial ele era em educação: quando os miúdos se queixavam que não gostavam da comida que estava no prato - "não gosto de ervilhas!" - ele servia-lhe mais uma colher de ervilhas, "para aprenderem a gostar". Hoje, são os adultos mais bem-educados que conheço, estas crianças.)

Voltando aos cereais. O preço dos cereais varia conforme a quantidade, a marca, o tipo, as promoções, etc. Eu fico cerca de dez a quinze minutos a analisar o mercado dos cereais nas prateleiras do supermercado antes de escolher o que levar. Para mim, comprar cereais, é um processo difícil uma vez que envolve diversas variáveis - algumas emocionais - e agentes. Há cereais que custam quase 6 euros e outros 1,5 euros. Porquê? Nunca saio dali sem descobrir a razão da variação de preço. E sabem como é que escolho? Com o coração de mãe. É estúpido, eu sei.

De quando em quando tenho um ataque de bom senso e decreto bloqueio económico aos cereais. É o meu "agora é que é" de boa gestão doméstica, boa educação alimentar, bom exemplo de vida saudável. Leite sem nada ou com café e pão fresquinho como era dantes, chá com torradas, queijo ou fiambre, doce ou marmelada. Lembram-se? Mas nunca é. Dura uma semana. Dá uma trabalheira, demora muito mais tempo e não fiz as contas para saber o custo/beneficio económico. Sei que que invariavelmente ao fim de uma semana suspiro pelos pacotes de açúcar em forma de cereais, pelo processo simples e automático de abrir um pacote, despejar o conteúdo numa taça e cobri-la de leite. O processo que destruiu o conceito de pequeno-almoço, o cheirinho a pão fresco, a torradas e a café. Para sempre.

Trigo, milho, cevada e centeio. Soubessem os miúdos que é da Ucrânia que vem a maioria dos seus cereais e alistavam-se no exército ucraniano. Mas Putin sabe que aqui no Ocidente eles não sabem nada de nada. Comem tudo, desde que esteja coberto de açúcar.

Jurista

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