A dança dos ratings

Ponha-se agora nos pés dos gestores da agência canadiana DBRS. Há três anos, poucos sabiam quem eles eram

Muitas grandes empresas preferem emitir obrigações em vez de pedirem um empréstimo ao banco. No entanto, ninguém vai investir na empresa sem ter alguma noção da probabilidade de reembolso. Em vez de cada um tentar recolher informação sobre a empresa e estudar a sua solvência, é mais eficiente pagar a uma entidade independente para o fazer por nós.

Esta entidade é uma agência de rating. Os seus trabalhadores passam os dias a analisar as contas das empresas e os detalhes legais das suas diferentes dívidas, para atribuir uma nota que reflicta o risco de as obrigações que elas emitem serem pagas.

As agências emitem opiniões, baseadas em análises, e só conseguem vender estas opiniões enquanto tiverem a reputação de fazer um trabalho sério que acerta nas previsões. Muito frequentemente, quem paga pelas opiniões nem é o utilizador; porque a própria empresa quer atrair novos investidores, ela oferece-se para pagar a comissão e disponibiliza-a de borla a todos os que queiram investir. (Se está a pensar “Mas isto não cria um conflito de interesses?” bingo para você.)

No caso da dívida dos países, o trabalho das agências é aproximadamente inútil. Mesmo num país pequeno como Portugal, há imensas pessoas que passam a pente fino o orçamento do estado, discutem a vontade política de pagar as dívidas, e avaliam a capacidade da economia produzir receitas. Basta ler com atenção os principais jornais e comentadores no país para ter o resumo de toda a informação relevante, ao qual a agência nada acrescenta. Por isso, ninguém paga às agências de rating pelas notas que elas dão aos países.

A razão pela qual elas gastam recursos nestas notas é porque elas lhes dão publicidade. O principal capital de uma agência é a sua reputação. Mas o que gera as receitas é a sua fama. Antes de ser respeitado é preciso ser conhecido, para ser contratado para escrever os pareceres.

Ponha-se agora nos pés dos gestores da agência canadiana DBRS. Há três anos, poucos sabiam quem eles eram. Mas de repente, as regras de compra do BCE fizeram depender das opiniões da DBRS a capacidade de Portugal se financiar. Agora, cada vez que a DBRS anuncia que vai fazer um comunicado sobre Portugal, tem dúzias de repórteres à porta.

De cada vez que a DBRS diz que está preocupada, mas vai manter o seu rating por mais um mês, ela garante que se vão escrever centenas de artigos nesse mês em que aparece a DBRS. Sempre que se fala de Portugal na imprensa internacional, menciona-se a DBRS. Ser ambíguo, indeciso, e não andar nem para a frente nem para trás, vale hoje milhões em publicidade grátis para a DBRS.

As avaliações da DBRS não dependem só do trabalho de Centeno e companhia. Dependem tanto ou mais do trabalho da editora deste jornal e dos seus colegas. Enquanto eles continuarem a escrever sobre a DBRS, a dar honras de sábio ao seu economista chefe, e a fazer cabeçalhos com os seus comunicados inúteis, aposto que o nosso rating vai continuar, muito estavelmente, na berlinda.

Professor de Economia na London School of Economics

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