Opinião: Ana Rita Guerra

A desinformação espalha-se mais rapidamente que o coronavírus

Foto: EPA/ANDY RAIN
Foto: EPA/ANDY RAIN

Um surto tão virulento como este não precisava de sensacionalismo e hipérbole para atrair as atenções. Mas é precisamente isso que está a acontecer

As máscaras cirúrgicas esgotaram por todo o lado e há uma grande probabilidade de a conversa junto à máquina de café já ter passado várias vezes pela “sopa de morcego” que originou o novo coronavírus. Os chineses têm gostos culinários que os ocidentais consideram peculiares e os comentários relativos aos mercados de animais vivos espelham essa estranheza.

Só que não foi uma sopa de morcego ou moqueca de cobra que causou este surto de um coronavírus até agora desconhecido. Na verdade, os especialistas ainda estão a trabalhar para identificar a origem desta estirpe e inclusive corre a suspeita que os primeiros humanos com infecção detectada não tiveram contacto com o famigerado mercado de Huanan. A incerteza é grande, mas isso não interessa nada na era mágica da desinformação.

Um surto tão virulento como este, que já infectou mais de 20 mil pessoas e matou 425 na China, além de 150 casos noutros países e uma morte nas Filipinas, não precisava de sensacionalismo e hipérbole para atrair as atenções. Mas é precisamente isso que está a acontecer: desinformação, distorção e até estereótipos racistas estão a espalhar-se mais rapidamente que o vírus.

Para as contas extremistas que habitam as redes sociais, o coronavírus vindo da China e a associação à ideia de asiáticos sujos, que amanham o peixe no chão e compram sacos de cães por atacado para fazer ensopado de caniche ao jantar, é uma oportunidade de enfatizar a rejeição do “outro”.

É também uma forma de distanciamento e culpabilização que omite uma análise mais franca dos hábitos omnívoros da sociedade. Se é verdade que os chineses beneficiariam muito de um escrutínio forte aos seus mercados de animais vivos e hábitos de consumo de animais selvagens, também não é menos verdade que as sociedades ocidentais deviam repensar a criação industrial de animais para consumo, muitas vezes em condições absolutamente desumanas e perigosas. Achar que há problema com os outros não ajuda ninguém.

Depois há a infelicidade da designação para uma certa marca de cervejas mexicana. A Corona foi atirada para o barulho com pesquisas sobre o “vírus da cerveja corona” e “vírus cerveja” a fazer uma aparição no Google Trends. Os memes relacionados continuam a circular e parece (quase) desnecessário declarar que ninguém apanha o vírus por beber cerveja.

Mas o que salta à vista nesta corrente de desinformação, para lá das implicações estereotipadas, os incidentes racistas e a confusão que já originou, é a incapacidade das plataformas, do Facebook ao YouTube e à TikTok, de conter a disseminação de informações falsas. Digamos, desta vez nem foi só culpa dos trolls e perfis extremistas, foram também vários meios de comunicação que saltaram em cima do surto pandémico e espalharam meias-verdades e informações não verificadas. Por cada página de verificação de factos há 20 a trabalhar para lançar o medo e causar pânico. Até eu estou a ser pressionada a não viajar para Portugal este mês, apesar de não haver qualquer caso identificado no país e a taxa de infecção fora da China ser extremamente baixa.

Estaremos condenados a isto? Ontem, um jornalista da rádio NPR salientava a dificuldade de reportar informações fidedignas sobre um caso com evolução constante em que até os governos tomam medidas controversas. A OMS alertou que fechar as fronteiras a cidadãos que tivessem viajado pela China era contraproducente numa situação destas, mas Estados Unidos, Austrália e Singapura fizeram-no na mesma.

Suspeito que os efeitos deste surto vão perdurar além das suas consequências físicas. Desde que as redes sociais se transformaram em caldeirões de mentiras e manipulação ainda não tinha havido um surto com capacidade de se tornar global. As consequências, como se vê com a eficácia da propaganda anti-vacinação em várias parte do mundo, podem ser catastróficas.

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