Opinião

A divergência de volta

Fotografia: D.R.
Fotografia: D.R.

A diferença entre o crescimento do PIB per capita entre a Irlanda e Portugal foi 47% nos últimos meros 5 anos.

Entre 2008 e 2010, quase todas as economias avançadas caíram num precipício. As fortes ligações entre países através do comércio internacional e dos fluxos financeiros transmitiram a recessão através das fronteiras. As políticas económicas nos países da OCDE foram muito parecidas, com estímulos fiscais e cortes nas taxas de juro. O valor dos ativos financeiros foi contagiado por um ciclo global, que já era visível anteriormente. Na zona euro, a criação da moeda única produziu convergência nas taxas de inflação e nas taxas de juro da dívida pública. A diferença em 2007 entre as taxas de desemprego na zona euro mais alta (11% na Eslováquia) e mais baixa (4% em Chipre) era limitada, com um desvio padrão de apenas 2,1%. Portugal entre 1960 e 2000 convergiu para o nível de riqueza dos países mais ricos da União Europeia.

Dez anos depois, em 2018, a globalização comercial, a integração mundial das finanças, a moeda única europeia, ou a profundidade das políticas económicas comuns na UE, todos continuam ou são maiores. No entanto, de todas as perspetivas económicas descritas no parágrafo anterior, a convergência foi substituída por divergência. Na política monetária, os EUA estão há quase três anos a subir as taxas de juro; o BCE tem-nas constantes; e o Banco de Inglaterra estuda como responder ao brexit. Na política fiscal, Trump tem um défice gigantesco para a expansão económica que os EUA atravessam, enquanto que na Alemanha, Merkel tem o maior superávite em mais de três décadas. A taxa de juro da dívida pública nos EUA está perto dos 3%, enquanto que na zona euro continua a rondar o 1%. Na Grécia, a taxa de desemprego em 2017 era 22% enquanto que a Alemanha vive com uns meros 3,8%, para um desvio padrão de 4,4% que é mais do dobro do que há uma década atrás. Na Grécia governa a extrema esquerda, na Hungria a extrema direita. Na França está no poder um partido com pouco mais de um ano de existência; na Alemanha a coligação a CDU está no poder ininterruptamente há mais de 13 anos.

E Portugal, em relação aos outros países europeus em crise? A diferença entre o crescimento do PIB per capita entre a Irlanda e Portugal foi 47% nos últimos meros 5 anos. A este ritmo, em 2020, a diferença de rendimento entre a Irlanda e Portugal terá duplicado! Menos deprimente, a nossa taxa de desemprego é um terço da grega, e concluímos o programa do FMI muito antes dos gregos. Mas mais deprimente, em 1989, um polaco médio, oprimido por décadas de pobreza comunista, vivia miseravelmente com metade do rendimento de um português, ajustado ao custo de vida (PPP). Trinta anos depois, em 2019, os polacos vão ser mais ricos do que os portugueses!

Os países dos dois lados foi Atlântico Norte, e dentro da Europa, estão mais diversos nos resultados, mais descoordenados nas políticas, e mais desalinhados nos objetivos. Isto explica em parte porque é que na política se afastam da globalização e do multilateralismo, e abraçam o nacionalismo e bilateralismo.

Professor de Economia na London School of Economics

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