Opinião: João Almeida Moreira

A economia do furto

Fotografia: Direitos reservados
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O batalhão de candidatos polícias e militares, de que o capitão na reserva Jair Bolsonaro é a face mais conhecida e, pasme-se, das menos radicais, defende que “bandido bom é bandido morto” e sublinha que o Brasil deve investir mais em “humanos direitos” e menos em “direitos humanos”. Para combater “esses vagabundos, que em vez de roubarem e matarem deviam era estar a trabalhar”, promete armar os “cidadãos de bem” do país.

Nos antípodas dos argumentos boçais dos integrantes da bancada parlamentar da bala está, por exemplo, Márcia Tiburi, candidata pelo PT ao governo do Rio de Janeiro e filósofa de estimação da esquerda urbana carioca para quem, segundo uma das suas intrincadas teses, o assalto é defensável porque há nele uma lógica, ainda que inversa, de justiça social.

Tal como Bolsonaro e Tiburi, os (cada vez mais raros) cidadãos brasileiros moderados concordarão que existe uma relação de causa efeito entre a economia e a criminalidade – seja mais por culpa da desigualdade, como acusa a esquerda, ou mais por responsabilidade da falta de segurança, como denuncia a direita. Enfim, o tema, de tão profundo e tantas vezes debatido, não merece aqui nenhum acrescento.

O avesso dele, ou seja, como a banalização do furto influi nos hábitos sociais ou como a criminalidade é ponto de partida e a economia ponto de chegada e não o inverso no Brasl é que talvez seja minimamente original.

Exemplo: em São Miguel do Tapoio, comerciantes aceitam pagamentos em documentos emitidos pelos bancos, uma espécie de moeda paralela da pequena cidade do interior do Piauí.

Por causa de três assaltos seguidos aos dois bancos e ao posto dos correios da cidade, os caixas já não trabalham nem com moedas, nem com notas, nem com cheques, nem com cartões. Para não travar a economia da cidade de vez por culpa dos roubos, os supermercados, as farmácias e os restaurantes aceitam transacionar comprovantes bancários em vez de dinheiro tradicional e depois faz-se, dentro dos possíveis, as contas.

Já na maior metrópole do país, por causa dos 1702 furtos registados entre Janeiro de 2016 e Junho de 2017 em nove cemitérios municipais de São Paulo, de acordo com o relatório do Tribunal de Contas da cidade citado pelo jornal O Estado de S. Paulo, os túmulos em bronze, mais vailosos, quase desapareceram, com as consequências financeiras para os fabricantes que daí decorrem.

Em compensação, a venda de portas, crucifixos, vasos e outros enfeites dos jazigos em latão, acrílico, alumínio, placa de automóvel, carvão e grafite explodiu. A empresária Vera Engerle, cansada de ver as sepulturas dos avós assaltadas, teve até a ideia de contratar Katota, um grafiteiro amigo do filho, para colorir o jazigo familiar com flores e outras criações. “Pintado, ninguém rouba”, pensou. E Katota já tem novas propostas de trabalho.

Tudo move a economia, até os coitadinhos dos assaltantes, diriam Tiburi e seus acólitos. Move e de que maneira, diria Bolsonaro e companhia, a maioria financiada peor comerciantes de armas.

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