A emergência da confiança

Renovado o Estado de Emergência (à hora de fecho desta edição era ainda aguardado o pacote de medidas do governo), o país continua mergulhado numa crise de confiança.

Depois de nos meses de verão o consumo ter reanimado, bem como a atividade económica e as exportações, o avanço do número de contágios por covid-19 e do número de mortes em território nacional acabou por abafar as boas notícias quanto à chegada de uma vacina.

Os agentes económicos voltam a estar alarmados com uma futura nova travagem na economia. Sem confiança não há consumo, nem investimento e muito menos crescimento. Tudo está nas mãos da saúde. Enquanto a vacina não chega, os empresários temem pela vida das suas organizações e os trabalhadores temem pelo seu emprego.

Num posto de observação privilegiado estão os banqueiros, que o Dinheiro Vivo e a TSF reuniram ontem em mais uma edição da Money Conference. Apesar das nuances de otimismo com que pintaram o quadro económico, admitiram que o crédito malparado deverá reaparecer em força e que as falências das empresas podem disparar. A opinião foi partilhada pelos líderes do Novo Banco, Millennium BCP, BPI, CGD e Santander.

Setores como os da restauração e turismo vivem numa agonia. Aliás, Miguel Maya, CEO do Millennium BCP, defende mesmo que o Estado tem de dar mais apoios ao setor da restauração. Mas não só, o comércio voltou a ficar vazio de clientes e a indústria está a assistir ao desaparecimento das encomendas nacionais e internacionais. Mas António Horta Osório, CEO do Lloyd"s Bank, também deixou um aviso: "os apoios devem ser pontuais para não agravar o défice".

O balanço entre a saúde e a economia parece ser cada vez mais difícil e, no final da história, muito do que correr bem ou do que correr mal acabará por sobrar para o sistema financeiro nacional. As empresas já anteveem que irão ter dificuldades em pagar muitos dos empréstimos e moratórias e, à medida que o desemprego avança, também as famílias poderão estar a braços com adversidades para fazer face aos compromissos assumidos junto da banca.

É verdade que o sistema financeiro está hoje mais bem preparado do que estava em 2011, na grande crise financeira. Aliás, a banca afiança que fez o trabalho de casa. O país também, diz o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, que marcou presença na Money Conference e afirmou que "não chegámos à crise sem o trabalho de casa feito".

Resta saber se tudo o que está realizado será suficiente para acomodar o impacto da mais grave crise da história da humanidade. Resiliência, precisa-se! Resiliência não é só uma expressão da moda, é antes um sinónimo de sobrevivência, de necessidade de manter a respiração para que, na fase seguinte pós-covid, os pulmões ainda funcionem e seja possível voltar a respirar sem a ajuda do ventilador Estado. É tempo de valorizar o que temos de melhor: a resiliência, a capacidade de trabalho e a confiança nos portugueses.

Diretora do Diário de Notícias

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