A emergência faz a união

Os humanos em casa de quarentena, refletem e redefinem o futuro. O isolamento físico começa a aproximar os humanos.

O avô do meu padrasto combateu na Primeira Guerra Mundial. Fez parte do batalhão português enviado para França em 1917, para ajudar a combater a Alemanha. Lembro-me da minha avó contar que no tempo da Segunda Guerra Mundial, havia racionamento de comida e filas de pessoas na rua à espera de arroz e outros alimentos. Logo a seguir à guerra seguiu-se o isolamento de Portugal em relação ao resto da Europa, por causa da ditadura, e milhares de portugueses tiveram de emigrar para França e Alemanha, sem saber ler nem escrever, atravessando a fronteira com a roupa que tinham vestida. O meu pai combateu na guerra de Moçambique e a sua geração deitou abaixo uma ditadura. Entras as guerras e a ditadura, muitos foram mortos, presos e torturados.

A minha geração nem à tropa foi. A crise económica de 2008 talvez tenha sido a altura de maior apreensão, que deixou muita gente sem emprego, a ter de emigrar e a fazer pela vida. Mas a verdade é que muitos destes novos emigrantes tinham cursos superiores, falavam no mínimo dois idiomas, tiveram muito mais facilidade em se adaptar e acesso a bons empregos onde quer que chegassem. É certo que a minha geração vive com a constante ameaça de um ataque terrorista, e dos efeitos do aquecimento global, mas nunca fomos posto à prova como agora. Esta geração nunca teve de passar por nada. Agora vivemos em estado de emergência, como se fosse uma guerra. As fronteiras estão fechadas e as pessoas proibidas de andar na rua. Quando tudo isto passar, será que é assim que vamos recordar esta pandemia? Imaginem o video case....

O problema: o mundo nunca esteve tão dividido.

A polarização bateu no teto. É preto ou branco, não existem outras cores no espetro. Nas redes sociais, anda tudo à porrada. Ou se é de esquerda, ou de direita. O racismo e xenofobia começam a ganhar um assustador terreno, devido ao aparecimento de partidos populistas. A esquerda culpa os ricos de tudo que há de mau no mundo. Os humanos tornaram-se egoístas, vivem num mundo de selfies e influenciadores vazios de valores e conteúdo. Vivemos agarrados aos telefones e redes sociais. Acabou a solidariedade e o amor pelo próximo.

A solução: preocupado com o estado podre da humanidade, Deus envia uma pandemia mortífera para o planeta Terra.

Começa na China, e espalha-se ao mundo inteiro. É um vírus novo, para o qual não há vacina. Centenas de milhares de pessoas morrem. Para que o bicho não se propague, os humanos são obrigados a ficar em casa de quarentena. Pede-se distância social. Por consciência própria e antecipando a decisão demorada de alguns governos, os humanos fazem quarentena voluntária. O mundo para. Os humanos em casa de quarentena, refletem e redefinem o futuro. O isolamento físico começa a aproximar os humanos.

O resultado: os humanos unem-se.

Pelo mundo fora, as pessoas juntam-se à janela para aplaudir os profissionais de saúde. Músicos dão concertos de graça via stream. Multiplicam-se as ofertas de ajuda por parte dos mais novos aos mais idosos, quer seja para ir às compras, fazer recados ou ir à farmácia. Os humanos criam contas gofundme.com de apoio a restaurantes, bares e discotecas, que em poucas horas reúnem milhares de dólares em donativos. Altice, Verizon e AT&T oferecem internet e conteúdos de graça. A Disney antecipa o lançamento do Frozen 2, a Netflix cria uma extensão no Google Chrome que permite às pessoas assistirem ao mesmo filme, estando em casas diferentes. O Bank of America suspende temporariamente os pagamentos das hipotecas e dos cartões de crédito. As redes sociais transformaram-se em espaços de partilha de solidariedade, preocupação e carinho. A distância social rapidamente se transforma em solidariedade social.

Fora de brincadeiras, apesar de não se saber como isto vai acabar, há uma gigante sensação de solidariedade e união como não se via há muito tempo. Pode ser que esta situação de guerra e isolamento forçado nos sirva de lição e que daqui para a frente as nossas atitudes nos levem a transformar este mundo num lugar bem melhor. Eu acredito!

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