Opinião

A era dos humanos ciborgues

Ciborgues, futurista, robôs

Poderemos todos vir a ter implantes no cérebro para aumentar as nossas capacidades?

O fascínio pelo aumento das capacidades humanas através de tecnologia embebida no corpo tem gerado histórias míticas no cinema, desde Blade Runner a RoboCop, e há vários casos por aí de gente que tem antenas implantadas na cabeça ou microprocessadores nos braços. Elon Musk, o mesmo que quer criar colónias humanas em Marte e mandar passageiros por túneis ultra-sónicos na Califórnia, está a trabalhar na sua empresa Neuralink em interfaces tecnológicas implantáveis no cérebro. E isto, diz o português Vasco Pedro, CEO da Unbabel, é bem capaz de ser o futuro.

Numa conversa sobre a sua intervenção no Singularity University Summit, que acontece hoje em São Francisco, divagámos sobre a possibilidade de estarmos a caminhar para uma realidade em que todos os humanos serão ciborgues. Isto é, com extensões das suas capacidades através de tecnologia implantada no cérebro ou noutra parte do corpo, algo menos dramático que as visões apocalípticas dos filmes de ficção científica e com aplicações mais práticas e menos grandiosas.

O interessante na visão de Vasco Pedro é o seu optimismo em relação ao potencial destes avanços, enquanto eu começo de imediato a imaginar a implantação forçada de chips por governos autoritários ou o vazamento de dados de localização de implantes em ataques piratas.

“De certa forma, nós já somos um bocado ciborgues”, declarou o CEO da Unbabel. “Parte da nossa memória já está no smartphone. De quantos números de telefone nos lembramos?” O mesmo acontece com as direcções para chegar a determinados sítios, que agora vivem na app de mapas. “Parte das funções que eram feitas pelo nosso cérebro estão a ser transferidas para máquinas”, sublinhou.

A ideia de Musk é, considerou, aumentar a largura de banda de interação entre o cérebro humano e os computadores, o que permitirá uma integração maior com inteligência artificial. Sendo mais invasivo que sacar o smartphone do bolso, Vasco Pedro encara este avanço como algo que vai permitir efeitos mais dramáticos do ponto de vista do desempenho.

“Eu acho que é positivo”, frisou. “Daqui a algum tempo vamos ter acesso a informação em tempo real à medida que estamos a pensar, e vai ser embebida no nosso próprio pensamento.” É uma visão interessante, mas ligeiramente assustadora. Imaginem: em vez de debatermos se algo aconteceu em 1985 ou 1991, já nem chegamos ao ponto de ter a discussão. Quando a dúvida se assoma é imediatamente dissipada. Não sei de que vamos conversar.

É certo, como destacou Vasco Pedro quando lhe coloquei alguns dos cenários perigosos que podem surgir com esta fusão de tecnologia e corpo humano, que o positivo e negativo do progresso são sempre relativos ao ponto de vista do interlocutor. “Acho que é positivo no geral, para o avanço da humanidade e para os problemas que temos de resolver”, vaticinou.

Mais, o CEO acredita que a entrada na era ciborgue pode eliminar a raiz do ressurgimento dos movimentos extremistas no mundo, “que vem muito da insegurança e incerteza em relação à velocidade com que o mundo está a mudar, e a sensação de que já não conseguem acompanhar.” Segundo ele, a integração do humano com a IA permitirá readaptar as pessoas a novas funções, depois do desaparecimento de milhões de empregos e a automatização de tarefas até agora feitas por pessoas.

“A IA vai permitir criar uma camada de abstração em relação a uma série de interfaces no mundo” disse. Isto é: o cérebro humano, que neste momento é demasiado lento para a adaptação ao ritmo a que estamos a ver a evolução tecnológica, conseguirá acompanhar essa velocidade. “Isso vai ser aquilo que permite que haja uma constante readaptação às necessidades, novos empregos e novas maneiras de trabalhar.”

No painel onde irá participar no Global Summit da SingularityU, a conversa vai rondar as aplicações da IA para a resolução de problemas de hoje. Esta é uma vertente interessante. “Já estamos completamente dependentes de tecnologia para trabalhar e o problema é que a nossa interação com ela é muito lenta”, reiterou.

A visão de um futuro ciborgue tem imensas questões adjacentes, principalmente numa altura em que mal conseguimos lidar com a invasão da privacidade provocada pelos gadgets que usamos externamente. Será este entusiasmo um efeito da bolha visionária de Silicon Valley, de onde saem as ideias mais mirabolantes de mentes descoladas da realidade quotidiana? Vasco Pedro acha que não. Diz que esta é uma região única, onde há muita experimentação e mil coisas a acontecer, para onde se mudam pessoas de todo o mundo a quererem fazer parte das conversas. “Silicon Valley é como Florença devia ter sido na altura do Renascimento.”

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