Opinião: Ana Rita Guerra

A eterna adolescência do YouTube

11. YouTube

O trabalho que os youtubers fazem é válido para os seus seguidores e tem o seu espaço. O que eles não podem exigir é serem isentos de responsabilidade

Em 2006, a revista Time declarou que a Pessoa do Ano eras tu. E eu. “You”. Todos os que migravam em massa para sites sociais, com o YouTube à cabeça, desenvolvendo conteúdo original, pessoal e gratuito que derrubava de uma vez por todas a unilateralidade do poder de comunicação. A Google tinha acabado de comprar o YouTube, num golpe de génio que custou 1,65 mil milhões de dólares na altura, e a sua monetização ainda estava longe no horizonte. Era tempo de o fazer crescer.

Treze anos depois, há partes do YouTube que se podem comparar a caixotes do lixo a arder, onde não se aproveita nada e a única atitude razoável a tomar seria mandar apagar tudo. Campanhas de assédio e intimidação. Discurso de ódio. Exploração de menores. Bullying.

A Google, escudando-se na liberdade de expressão, tem tido uma atitude titubeante perante os vários escândalos que se assomaram no site de partilha de vídeos – os seus termos de serviço por vezes são estritamente cumpridos, outras vezes não se percebe porque é que alguém continua a poder infringi-los sem consequências. O meio não é a mensagem, mas tem grandes responsabilidades na sua disseminação.

Aquilo que se pede às gigantes tecnológicas com poder imenso nas redes sociais e canais de veiculação é difícil de executar, porque obriga à clarificação das regras do jogo e das linhas que se podem ou não pisar. O que constitui apenas péssimo carácter e mau gosto para uns ultrapassa os limites da legalidade para outros, e as redes são forçadas a fazer arbitragem em grande escala quando isso não parece claro.

Mas este não é o caso no episódio dos sites ilegais de apostas que vários youtubers nacionais (Wuant, Tiagovski, Sirkazzio e Windoh) andavam a promover a troco de patrocínios aparentemente chorudos, uma prática que o YouTube forçou a terminar depois da investigação da Renascença. Foi precisa uma exposição mediática incontornável para tomar medidas e acabar com a promoção de sites ilegais junto de uma audiência maioritariamente constituída por menores.

Os youtubers que lucravam com os vídeos patrocinados por estes sites até podiam não ter noção de que estavam a cometer uma ilegalidade, mas a sua reacção perante o fecho da torneira não teve pés nem cabeça. O Wuant, que ponderava produzir menos para o YouTube por causa da eliminação do vídeo patrocinado por um dos sites, disse que “Gostava de voltar aos tempos em que nada disto importava, sem nos preocupar com 1001 merdas para postar um vídeo.”

Isto da legalidade das coisas é uma grande chatice. Escreveu a seguir: “Pessoal nos 30/40 anos com mentalidade de 70 há 100 anos atrás. A esperança tá em nós, na juventude. Farto de viver num país de velhos afastados da atualidade.”

Considerar que pessoas com 30 ou 40 anos são velhas é ligeiramente ofensivo, e aquilo que parece fugir-lhe é a noção de que a juventude não é uma qualidade imutável, é um estado temporário. Mas a estrutura do raciocínio nem sequer faz sentido. Achar que a legislação deve ser repensada para acomodar novas tendências pode ter mérito. No entanto, aqui estão em causa sites sem a devida licença e uma promoção junto de um público menor; não é a regulação que tem que se adaptar a eles e não são os adultos que garantem o seu cumprimento que estão errados. Os termos de serviço também não mudaram recentemente; a regulação já existia e era ignorada.

Entre o gáudio dos críticos e a defesa acirrada dos seguidores, gerou-se uma discussão que vai para lá das especificidades do caso. Muitas das críticas que vi serem dirigidas ao Wuant fundamentaram-se na ideia de que os youtubers não fazem trabalho a sério, que os seus vídeos são disparatados e não podem realmente serem considerados conteúdo, que a sua reacção se deve ao facto de ele e outros estarem numa bolha e acharem que as regras não se lhes aplicam.

Eu discordo. O trabalho que Wuant e outros youtubers fazem é válido para os seus seguidores e há uma comunidade em torno deles que tem o seu espaço e o seu momento. O que eles não podem exigir é serem isentos de responsabilidade. O que eles não têm direito é a excepções de estatuto. O YouTube pode comportar-se como um eterno adolescente, errático e ingrato por vezes, apaixonado e inspirador por outras, mas a (casa) mãe tem de pôr mão nisto.

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