Opinião: António Saraiva

A Europa é chamada a mostrar a sua liderança

O último dia de maio foi uma data triste para quem acredita num sistema de comércio internacional baseado em regras multilaterais.

Nesse dia, soube-se que as importações norte-americanas de aço e alumínio provenientes da União Europeia, do Canadá e do México passavam a estar sujeitas a sobretaxas alfandegárias de 25% e 10%, respetivamente.

No mesmo dia, a declaração final da reunião ministerial da OCDE, dedicada ao tema “remodelar as bases do multilateralismo”, obteve o consenso de todos os membros menos um. Pelo segundo ano consecutivo, os Estados Unidos impediram a unanimidade no seio da OCDE.

Entretanto, perspetivam-se novos passos na escalada protecionista dos Estados Unidos, com a abertura de um inquérito sobre as importações de automóveis e seus componentes. Prevê-se que este inquérito forneça o pretexto para aumentos das tarifas alfandegárias, infringindo mais uma vez os princípios da Organização Mundial de Comércio.

Para além dos efeitos destas medidas nos setores diretamente afetados, há ainda a considerar o seu impacto indireto nos mercados de capital e na confiança económica, afetando sobretudo decisões de investimento.

A resposta europeia às tarifas norte americanas está a ser enérgica, ainda que proporcionada e balizada pelas regras da Organização Mundial de Comércio. Foi já apresentada uma ação legal nessa organização e em julho entrarão em vigor medidas de retaliação, com a aplicação de direitos adicionais sobre uma lista específica de produtos.

Estão em estudo medidas de salvaguarda para fazer frente ao previsível aumento de importações provenientes de terceiros países, decorrentes do desvio de comércio.

Mas, neste novo contexto, a União Europeia precisa ir mais além. Mais do que nunca, tem de mostrar a sua liderança.

Tem de apoiar o multilateralismo, no quadro da Organização Mundial de Comércio, liderando reformas que adequem o sistema de comércio internacional à realidade do século XXI.

Tem de avançar com uma política comercial prudente, aberta e baseada na reciprocidade, através de acordos com parceiros-chave e, assim, reforçar o seu posicionamento na economia mundial.

Tem de desenvolver políticas internas que atraiam novos investimentos e que ajudem os trabalhadores a desenvolver novas competências. Só assim a globalização poderá ser um jogo de soma positiva para todos.

No rescaldo do recente fracasso da reunião do G7, a chanceler alemã disse que a Europa deve tomar o seu destino nas suas mãos, cada vez mais.

Muitas vezes, é preciso um estímulo do exterior para nos fazer avançar, ou uma ameaça externa para reforçar a nossa união. Exige-se que a Europa faça agora, por reação, o que estrategicamente deveria fazer por ação.

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