Opinião

A extinção do Olá e Obrigado

notas de agradecimento

As posições tornaram-se mais voláteis, a importância de cultivar relacionamentos profissionais perdeu gás, é tudo muito rápido e a memória muito curta

No furor de chegar a tempo a uma marcação num sítio desconhecido, interpelei uma segurança do centro comercial em busca de indicações, sem passar pelo cumprimento que deve iniciar todas as interacções sociais. Ela sorriu ligeiramente e disse “Olá” de forma firme, continuando a lição com um “boa tarde” muito lento. Não me recordo da hora nem do que ia fazer, mas aquele momento tornou-se um lembrete recorrente de que as formalidades não são inúteis.

Existe um valor intrínseco na saudação que vai para lá da educação e do respeito básico por qualquer pessoa. Toda a gente tem aqueles colegas de trabalho que não respondem a um cumprimento ou então amarfanham um “b’dia” por baixo da respiração, como se fosse uma surpresa desagradável alguém demonstrar boa disposição matinal. Mas isso não anula a mais-valia da saudação: é a primeira coisa que nos liga aos outros, em especial aqueles com que se passa um dia inteiro de trabalho anos a fio.

Foi nisto que pensei quando a cadeia de supermercados Walmart anunciou o fim da posição de porteiro nas suas mais de mil lojas, o fim de uma era para a gigante do retalho. Os empregados que ocupam este cargo estão ali, sucintamente, para saudar os clientes que entram e cumprimentar os que vão embora. Estes “greeters”, que também existem em lojas como Ross e Target, simbolizam a excelência do serviço ao cliente do retalho norte-americano. E a Walmart vai acabar com isso num momento de bonança económica, com os bolsos cheios de dinheiro vindo do tremendo corte de impostos. Um momento em que a crispação social é tão forte que um simples “olá, bem-vindo” ao entrar numa loja seria benéfico. Eu sei a diferença que fez comigo quando fui surpreendida por esta prática interessante.

Talvez porque houve uma revolta contra a formalidade, o intelectualismo e as boas maneiras, perder tempo com estes preciosismos pode parecer bacoco – e há momentos em que a única forma de partir o molde é mandar as convenções à fava e sair da linha, ou não teríamos tido um movimento feminista triunfante.

Mas aqui não se trata de considerações políticas no grande esquema das coisas. Este fim do “greeter” nas lojas Walmart foi anunciado pouco depois de ter saído um artigo fascinante na Reuters sobre o poder das notas de agradecimento no mundo profissional – completo com exemplos de sucessos que aconteceram por causas delas. Também estas notas, que tendem a desaparecer, têm maior valor que aquilo que parecem indicar.

Há uns 15, 20 anos, era comum receber-se agradecimentos por escrito, muitas vezes acompanhados do cartão-de-visita com um traço para indicar que o seu dono rabiscou pessoalmente algo que de outra forma seria impessoal. Isto tornou-se uma raridade, substituído pelo email, pela mensagem instantânea, pelo post no LinkedIn ou Facebook, ou então pelo silêncio puro e duro. As posições tornaram-se mais voláteis, a importância de cultivar relacionamentos profissionais perdeu gás, é tudo muito rápido e a memória muito curta – em busca do próximo, mirando em frente e não para trás. Além do mais, há tantos profissionais sem local de trabalho fixo que descobrir para onde enviar uma nota pelo correio pode ser um desafio.

Mas isso não diminui a mais-valia que é escrever umas palavras de agradecimento. De acordo com um estudo da Accountemps, 80% dos gestores de recursos humanos disseram que receber notas de agradecimento por parte de entrevistados é útil na avaliação das candidaturas. No entanto, apenas 24% dos candidatos se dá ao trabalho de o fazer.

Suponho que este estado de coisas seja semelhante noutras áreas, além dos recursos humanos, e tenho para mim que está na hora de reavivar o hábito de enviar notas de agradecimento. No mínimo, de agradecer mais vezes às pessoas que se vão cruzando no nosso caminho profissional. Não apenas quando se espera um benefício directo, como é o caso da candidatura a uma posição, mas por questão de higiene da alma. Há demasiadas vezes em que nos esquecemos de dizer “olá” e “obrigado”, numa azáfama diária em que outras prioridades nos atropelam o discurso. Este é o momento para mudar isso.

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