A face invisível da crise começa a aparecer

Vão surgindo dados estatísticos, relativos ao início deste ano, que mostram que a recuperação não só foi interrompida como deu lugar a uma nítida degradação da atividade económica. Esta tendência é clara por exemplo na contração mais profunda do volume de negócios, nos setores diretamente afetados pelo regresso ao confinamento, mas também na indústria.

As exportações de mercadorias, que chegaram, em setembro, a alcançar um valor semelhante ao do mesmo mês de 2019, voltaram a cair, fazendo afundar a produção dos setores industriais mais dependentes dos mercados externos.

A mais recente Síntese Económica de Conjuntura do INE não deixa margem para dúvidas: "Em Portugal, a informação disponível para janeiro e fevereiro, num contexto de novas medidas restritivas de resposta à pandemia, revela uma redução expressiva da atividade económica."

No mercado de trabalho, a forte resistência das empresas em prol da preservação do emprego parece estar agora a ceder. Depois de, entre junho e novembro, terem sido recuperados 148 mil dos 202 mil postos de trabalho perdidos de fevereiro a maio, o emprego voltou a cair em dezembro e janeiro com a redução de mais de 116 mil postos de trabalho.

A face invisível da crise, que estava escondida pela resiliência das empresas e também, é certo, pelos apoios de emergência que foram sendo concedidos, está a começar a aparecer, aos poucos, à medida que as empresas vão esgotando as suas reservas, a sua capacidade de resistir.

Na falta de outras, de caráter mais estrutural, medidas de emergência, como o lay-off simplificado e seus sucedâneos, moratórias, linhas de crédito com garantia pública, adiamento de impostos, foram e continuam a ser fundamentais para que as empresas possam aguentar um pouco mais.

O governo vai gerindo a situação, dia-a-dia, apresentando e reapresentando medidas e apoios, melhorando aqui e ali as suas respostas, mas sempre aquém do que seria necessário, sempre aquém do que vai sendo feito na generalidade dos países europeus.

Não se vislumbra, no entanto, uma resposta mais estrutural e mais robusta, à altura do desafio. Uma resposta que passa, não me canso de insistir, por medidas - há muito reclamadas, há muito prometidas - que favoreçam o reforço dos capitais permanentes das empresas.

Não basta assegurar a gestão corrente da crise, esperando que a pandemia passe, que as empresas aguentem, e que ressurja de novo uma dinâmica de recuperação.
É preciso mais e melhor para que, no rescaldo desta crise, as empresas não só tenham resistido, mas estejam em condições para impulsionar a recuperação, para investir, para competir com as suas congéneres europeias, que têm beneficiado de níveis substancialmente diferentes de apoio à respetivas economias.

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