A fadiga do Zoom e o regresso ao escritório

"Levantem a mão virtual se quiserem fazer perguntas", indicava a assistente de produção de uma mesa redonda por Zoom com os protagonistas do próximo filme da Disney, Cruella. "De resto, mantenham-se sem som." Pela enésima vez desde que a pandemia interrompeu bruscamente as entrevistas em pessoa e passadeiras vermelhas em Hollywood, percebemos que uma plataforma virtual não é um bom substituto. É apenas um marcador de posição, ali a segurar as costuras enquanto não podemos voltar ao normal.

A fadiga do Zoom está no pico, e se algumas destas mesas redondas são bem organizadas e correm de feição, outras são um completo desastre. As entrevistas de bastidores na 92ª edição dos Óscares, por exemplo, foram pejadas de problemas técnicos e os próprios vencedores estavam impacientes, ao contrário do que costuma acontecer quando exibem as estatuetas pessoalmente junto dos jornalistas.

Não é só Hollywood que está farta de Zoom, Webex e outras plataformas de reuniões virtuais. Este fenómeno não é imaginação e não é apanágio de apenas alguns sectores, como se tem visto com declarações públicas de figuras importantes do mundo empresarial. "Estou prestes a cancelar as minhas reuniões por Zoom", declarou o CEO do JP Morgan Chase, Jamie Dimon, no início de Maio. "Estou farto disto."

Apesar de reconhecer as vantagens do teletrabalho, como a eliminação do tempo de deslocação para o local de emprego e a maior flexibilidade dada aos trabalhadores, Dimon disse que as reuniões e discussões virtuais são menos frutíferas que a interacção ao vivo. O CEO também afirmou que alguns clientes que optaram por rivais explicaram que os outros bancos foram lá pessoalmente e o JP Morgan Chase não. "É uma lição", considerou.

O próprio CEO do Zoom, Eric Yuan, admitiu que sente cansaço de reuniões virtuais atrás de reuniões virtuais e escreveu um artigo de opinião na CNN com dicas para reduzir esta fadiga.

É certo que muita desta exaustão psicológica se deve ao ritmo com que as empresas usam reuniões virtuais para manter um sentido de controlo sobre os trabalhadores. Fora do escritório é difícil ver quem está a fazer o quê. Mas a desconfiança de que quem trabalha remotamente faz menos é injusta. Segue um paradigma de hierarquia rígida que nem sequer tem respaldo nos resultados concretos que foram sendo obtidos ao longo do último ano: as pessoas em teletrabalho são responsáveis e produtivas. Estão é fartas de reuniões intermináveis via computador.

Podemos considerar que esta fadiga se deve também ao contexto em que muitos estão, sem as mesmas condições que têm no escritório e com responsabilidades familiares em simultâneo. Mas há um elemento surpreendente que ajuda a explicar o cansaço psicológico causado por estas reuniões virtuais.

De acordo com Daniel Goleman, citado pela Forbes, o problema é que não conseguimos olhar nos olhos dos interlocutores quando estamos em reuniões virtuais. Ou olhamos para o ecrã ou olhamos para a câmara; em qualquer dos casos, não temos contacto visual directo. E essa desconexão tem efeitos na nossa psique, dando-nos a impressão subconsciente de que estamos a falar para o vácuo sem a atenção do interlocutor. "O cérebro não recebe os sinais que apanha na vida real", disse Goleman.

A interacção é em tempo real, ao contrário do que acontece com comunicações escritas, mas mesmo assim não satisfaz a nossa necessidade intrínseca de ligações pessoa-a-pessoa. Isto agrava uma situação complexa, visto que as outras conexões sociais foram praticamente suspensas durante o confinamento.

Tenho ouvido versões desta ideia subjacente de várias pessoas, ainda que não consigam apontar exactamente porque é que as reuniões virtuais são menos estimulantes e satisfatórias. Há quem aponte para a estrutura mais formal da reunião por Zoom, há quem sinta falta daquelas conversas espontâneas que se têm no escritório, há quem diga que se não consegue alcançar o mesmo espírito de equipa e vestir a camisola da mesma forma.

Com tanta análise do "novo normal" e o que será o futuro do trabalho, suponho que estamos mais longe do trabalho remoto total do que alguns pensaram há uns meses. Existe uma vontade real de regressar aos escritórios. Isso não significa necessariamente um regresso ao pré-pandemia. Os modelos híbridos são interessantes e podem oferecer um meio-termo entre as vantagens de ir ao escritório e as vantagens do teletrabalho. Tudo depende da natureza do trabalho, da situação geográfica e, sobretudo, da qualidade da equipa de gestão. É mais importante ter profissionais felizes que um controlo visual absoluto sobre tudo o que fazem durante o expediente.

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