A falta de ação também fica com quem a pratica

Empurrar com a barriga e decidir só quando já não é possível adiar mais uma tomada de posição. Parece ser a receita do governo para gerir a pandemia, acreditando que sem planos e sem decisão se compromete menos.

A lista que o comprova é longa e lamentável. Da contratação de computadores para os miúdos em ensino à distância só em dezembro (hão de chegar quase no fim do ano letivo) à declaração do primeiro-ministro de que só a meio de março começará a revelar como irá fazer o desconfinamento. Mesmo com números de covid que já permitiriam relançar alguma atividade (lembre-se o investimento feito pelas empresas em adaptações de segurança) e dar um horizonte dos termos e condições para a reabertura, que permitiria reduzir a incerteza e aplacar alguns dos efeitos psicológicos da pandemia.

Mas se tudo pode ficar fechado, segurando artificialmente os números baixos da covid, para o governo isso compensa a perda de sanidade mental e de rendimentos, até vale mesmo mais uns pedregulhos atirados para cima das contas de famílias e empresas à beira do abismo. Se pode manter-se tudo igual, para quê tomar decisões? É que as decisões têm efeitos e obrigam a refletir, a diferenciar e sobretudo a assumir responsabilidades. E exceto no que respeita a anunciar linhas de apoio - que eventualmente terá de ser devolvido - os tempos não estão para isso...

É pedra de toque deste governo, que fechou tudo a eito mas só quando a pressão sobre os hospitais se tornou insuportável, que proíbe a venda de uma simples água em mão e que impede as livrarias puras de fazer negócio - porém permite-o a quem tenha ao lado dos livros uma banca de fruta ou um posto para registar o Euromilhões - a imobilidade total enquanto esta for possível.

Não entendeu ainda que, pasme-se, não decidir também tem efeitos. E normalmente são mais graves do que os das piores decisões. A procrastinação terá - tem já - efeitos dramáticos na saúde física e na saúde mental dos portugueses; na resiliência das empresas e na manutenção de empregos assim que os apoios desaparecerem; na pobreza que, denunciam as instituições solidárias, já chega a quem nunca antes precisou e nem sabe como pedir ajuda. E terá efeitos brutais na bomba das moratórias, em contagem decrescente para rebentar com estrondo e estrago nas mãos das famílias daqui a 25 dias sem que haja ideia do que acontecerá se boa parte dessa dívida acabar em malparado nos bancos - como o próprio Banco de Portugal já avisou que podia acontecer. Se boa parte desses empréstimos ficar por devolver pelas famílias que perderam o salário ou viram o seu rendimento cair a pique e não têm como pagar as contas, ainda sem a fatura da moratória a engordar o incumprimento.

O governo não quer ficar preso a más decisões. Ainda não entendeu que a falta de um plano e a ausência de ação não o isentam de responsabilidade. Quando tudo correr mal, a culpa será de quem fechou os olhos. Pilatos não foi menos culpado por lavar as mãos.

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