A geração mais qualificada de sempre: Baboseiras

Em Portugal quando se fala de educação os políticos, os comentadores, os leigos e os especialistas têm uma frase sempre pronta que debitam com orgulho e como prova da excelência do trabalho desenvolvido. Enchem os pulmões de ar saturado e declaram: temos a geração mais qualificada de sempre.

Atentemos por um momento no conteúdo da frase e pensemos. Em Portugal no início do século XX tínhamos cerca de 75% de analfabetos quando na generalidade dos países da Europa ocidental o analfabetismo tinha sido já erradicado; nesse momento essa geração era a mais qualificada de sempre. A 25 de Abril de 1974 mais de um quarto da população era analfabeta situação sem paralelo na Europa e semelhante a muitos países latino-americanos; nesse momento essa geração era a mais qualificada de sempre.

Na verdade desde a pré-história, que se perde na bruma da memória, cada nova geração é a "mais qualificada de sempre" e ainda está por nascer uma geração que seja menos qualificada que as precedentes. Mesmo em países que passaram por guerras, mesmos os que sofreram terríveis desastres naturais as novas gerações são mais qualificadas que as anteriores.

Vemos assim que essa frase longe de ter significado é apenas um dito à La Palice, uma inanidade, um frase sem conteúdo palpável, como dizer que em Portugal o Sol nasce agora todos os dias a Oriente.

Uma frase sem conteúdo, sem sentido prático e que apenas serve para esconder a verdade que já vem de trás: as nossas sucessivas gerações mais qualificadas de sempre são as menos qualificadas da Europa Ocidental desde há séculos.

Ter a geração mais qualificada de sempre é algo normal e só com grande esforço (nem duas bombas atómicas sobre o Japão provocaram um recuo) se consegue ter uma geração menos qualificada que a anterior. Ter orgulho nesse feito é simplesmente lamentável e prova de dificuldade em encontrar reais motivos de regozijo.

Esta frase se repetida no estrangeiro faz-nos passar por ridículos e torna-nos motivo de troça. Só deve ser usada na televisão para consumo nacional. Só a nossa geração mais qualificada de sempre a aceita sem pestanejar e sem se rir.

O que ela nos diz é que apesar dos esforços de reduzir o investimento, de deixar apodrecer as instalações, de diminuir a qualidade os professores, ainda assim temos uma geração mais qualificada que as anteriores mau grado ser uma geração cada vez mais longe das suas contemporâneas.

O que verdadeiramente interessa é ver a dimensão do progresso em relação às gerações anteriores e ainda mais importante verificar qual a nossa posição comparativa com as outras sociedades europeias e mundiais. Estamos a melhorar ou a piorar comparativamente?

Enquanto em Portugal a sociedade, os supostos especialistas, os jornalistas, os comentadores independentes, puderem engolir e repetir frases ocas deste tipo podemos ter a certeza que as qualificações do país são fracas e insuficientes e que nos envergonham no concerto das nações.

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