A guerra da informação

Ao longo das últimas décadas a Rússia desenvolveu uma elaborada máquina de propaganda e desinformação. Hoje sabemos como essa máquina esteve envolvida na campanha de Donald Trump em 2016, na campanha pelo brexit e, a outro nível, em surtos de desinformação sobre as medidas para combater as alterações climáticas e até sobre as vacinas contra a covid-19. Os sistemas de desinformação que têm feito parte da atividade de propaganda impulsionada por

Putin têm sido ativos e obtiveram resultados. Usou o digital mas também canais de televisão como o Sputnik e o RT, além de numerosos blogs e sites, alinhados e sincronizados, que em conjunto criaram uma realidade alternativa. Tudo indica que Putin acreditou que essa sua capacidade seria útil em tempo de guerra e ajudaria a fornecer a falsa narrativa em que se baseia a invasão da Ucrânia. No entanto, nestas semanas de guerra, já se percebeu que a sua máquina sofreu sérios reveses.

Putin não contou com a capacidade de resposta dos ucranianos em matéria de informação e no efeito que as imagens da invasão e da guerra tiveram na sensibilização da opinião pública na Europa e no resto do mundo. E cometeu um erro de palmatória quando deixou que a sua imagem oficial fosse a de um homem acantonado na extremidade de uma comprida mesa, que só fala à distância com os seus interlocutores, enquanto Zelensky aparece de forma mobilizadora a incentivar a resistência, a desmontar os argumentos dos adversários, de forma simples e coloquial, falando ao sentimento das pessoas, quer na Ucrânia, quer nas suas mensagens e intervenções para governantes de outros países e organismos internacionais. Ao mesmo tempo a torrente de imagens dos efeitos da destruição provocada pela invasão russa atiraram rapidamente por terras a ideia de que tudo era apenas uma operação militar especial perfeitamente sob controlo e sem intuitos destrutivos.

O poder da informação - e sobretudo da imagem - em tempo de guerra é tremendo. Sabemos isso desde a II Grande Guerra com as fotografias do desembarque na Normandia: depois a Guerra do Vietname foi a primeira a ter cobertura televisiva a sério, além de extensa cobertura fotográfica. O mesmo aconteceu com a guerra no Afeganistão e com os vários conflitos no Médio Oriente, nomeadamente no Iraque.

A velha frase "uma imagem vale mais do que mil palavras" ganhou ainda mais força e tem mostrado resultados. A opinião pública foi sensibilizada por imagens de todos estes conflitos e muitas vezes essas imagens, impressas ou na televisão, tiveram influência na alteração de políticas.

Esta é a primeira guerra em que as imagens da morte e destruição provocadas pela invasão russa alastram de forma imediata por todo o mundo. A força da torrente de informação visual foi tal que a Rússia encerrou o acesso ao Facebook e promoveu uma lei que castiga duramente com penas de prisão quem disser que está uma guerra em curso - uma medida que visa sobretudo os jornalistas que na Rússia querem reportar o que se está a passar e a oposição russa que protesta contra a invasão. Em matéria de desinformação a prioridade de Putin passou a ser evitar que os Russos percebam o que na realidade se passa.

Mas a criatividade em tempos do digital é deslumbrante: segundo a revista Wired, depois de Putin ter mandado encerrar o acesso ao Facebook, houve um movimento organizado de pessoas na Europa Ocidental que passaram a usar o Tinder para relatar o que se passava. O sistema usado foi este: uma pessoa indicava a sua localização numa cidade russa na aplicação do Tinder, mesmo estando noutro país, como a Alemanha, por exemplo, e começava a querer contactar pessoas à volta da sua suposta localização. Quando a conversa se iniciava, em vez do habitual flirt do Tinder, começava uma conversa com informações sobre a guerra e o que se passava na Ucrânia. Há relatos de que muitas pessoas assim contactadas na Rússia admitiam ignorar os factos reais.

Este exemplo é extraordinário e mostra como mesmo as mais sofisticadas máquinas de desinformação podem hoje ser contornadas com imaginação. Putin não estava à espera que o Tinder fosse uma arma de guerra. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro.

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