Opinião

A ilusão da liberdade americana

Estátua da Liberdade, Nova Iorque

A saúde e a educação são as variáveis mais importantes, sem as quais não se chega a lado nenhum. O mercado, aqui, não funciona melhor que o Estado

Os corredores do hospital de crianças de Los Angeles estão cheios de arte colorida nas paredes, adornando corredores impecavelmente limpos e com salas de espera renovadas. É um complexo enorme, onde as enfermeiras são amigáveis e os médicos são (quase) pontuais nas consultas. Está no top 5 dos melhores hospitais pediátricos dos Estados Unidos, uma estatística que nos conforta o coração enquanto empurramos o carrinho de bebé em direcção ao consultório. Mas quando as contas chegam para pagar depois das consultas, percebemos que tudo isto é um luxo. A medicina mais avançada do mundo é para quem pode, não para quem precisa.

A conta de 1200 dólares após uma consulta com exames de sangue e urina pareceu-me excessiva para quem tem seguro. Não tinha compreendido ainda todos os termos de utilização destes seguros de saúde, que nos dão a ilusão de estarmos protegidos.

Não. Estes seguros dão a oportunidade de pagar 300 dólares por mês para podermos aceder a médicos e hospitais dentro da rede, mas não para que nos paguem consultas de especialidade. Há uma série de actos médicos incluídos no pacote, como exames de rotina, mas se alguém ousa ficar doente ou precisar de uma especialidade, é tudo pago a pronto. Só quando atingimos o montante da franquia anual de despesas é que passamos a estar cobertos. Só quando as consultas e tratamentos atingem o montante pré-definido, por exemplo 7 ou 8 mil dólares, é que os restantes cuidados são cobertos pelo seguro.

Esta é a “liberdade para escolher” que os apologistas de sistemas de saúde privados defendem. Pensei imediatamente nisto quando li o artigo de opinião do jovem Manuel Bourbon Ribeiro, clamando pela liberdade de escolha de que se convenceu que não tem. Aos 17 anos, munido da informação fresca que os estudos lhe deram, energizado pelo debate político que permeia qualquer esquina da vida social, Manuel tem grandes aspirações para a sua vida num país que avalia decrépito, encolhido, diminuído depois da glória de antanho. Mas quer permanecer no país onde cresceu e isso é um bom sinal, mesmo não concordando com a sua visão dele.

Estão a ver, a ideia de que o capitalismo em estado puro se traduz em mais liberdade para as pessoas e a vitória da meritocracia é falaciosa. Essa liberdade só está ao alcance de quem já tem algum dinheiro, alguma rede de contactos, amigos com capacidade de facilitar oportunidades. Nem é preciso tocar em raças ou géneros para perceber que a liberdade nos Estados Unidos é um funil com a boca virada sempre para o mesmo lado. Começa no acesso à pré-escola e vai até à selecção para as melhores universidades, onde um dos critérios de escolha é o legado – levam em conta se um candidato tem um pai ou mãe que são alumni daquela universidade. Tudo pela oportunidade de investir 200 ou 300 mil dólares num curso superior, com a expectativa de que compense nas próximas décadas de trabalho.

Quem se ficou pela faculdade comunitária não tem propriamente um passe gratuito. Quem não seguiu estudos superiores pode preparar-se para trabalhar até morrer em três empregos que pagam abaixo do limiar da subsistência. E se alguém na família ficar doente, pois que remédio, é declarar bancarrota. Os números da American Public Health Association mostram que cerca de 530 mil famílias declaram falência anualmente devido às despesas astronómicas com problemas de saúde. Que tal soa esta liberdade?

A saúde e a educação são as bases, as variáveis mais importantes, as condições sem as quais não se chega a lado nenhum. O mercado, aqui, não funciona melhor que o Estado. Convençam-me de um sistema misto, convençam-me de reformas em ambos, mas não me vendam uma falácia porque a realidade se encarregou de a desmontar.

Manuel Bourbon Ribeiro encarna todos os tópicos pré-programados na direita conservadora – dêem-lhe liberdade para escolher a escola e o hospital, recusem a liberdade de terminar uma gravidez ou escolher a eutanásia para terminar a vida. A ideologia renova-se e multiplica-se, mesmo antes do desenvolvimento integral do córtex pré-frontal, porque tendemos a enquadrar as ideias no contexto em que as vivemos. Quem nos rodeia, ensina-nos. O que nos rodeia, elucida-nos.

É por isso que quem vem à procura do sonho americano da liberdade muitas vezes acaba desencantado. Aquilo que se dá como garantido em Portugal torna-se invisível e só recupera valor contraposto com a sua ausência noutra realidade. Há, também, uma tendência para a idealização do que está lá fora, pelo que viajar é a melhor maneira de expandir a curvatura do mundo dentro da cabeça. Melhor ainda é ter um país como Portugal para onde voltar – mesmo que nos pareça, a espaços, que está a ser tomado pelo turismo selvagem e abalroado pela Web Summit.

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