Opinião

A Indigestão Tecnológica

Fotografia: REUTERS/Beck Diefenbach
Fotografia: REUTERS/Beck Diefenbach

A economia portuguesa corre o risco de perder na próxima década 1,1 milhões de postos de trabalho em consequência do processo de robotização de diversos setores de atividade, nomeadamente, da indústria transformadora, de áreas administrativas e do comércio. A conclusão é do estudo a “Automação e o Futuro do Trabalho em Portugal, documento encomendado pela CIP – Confederação Empresarial de Portugal ao McKinsey Global Institute e à Nova School of Business and Economics, e onde os autores sublinham que cerca de 50% do tempo usado atualmente para as atividades laborais poderia automatizar-se com recurso às tecnologias existentes. Uma percentagem muito elevada, comparativamente com a de outros países, que poderá atingir os 67% dentro de dez anos. Todavia, também será líquido que a economia poderá criar neste período entre 600 mil e 1,1 milhões de empregos. A (grande) diferença é que as novas ocupações surgirão em particular nas profissões técnicas, na assistência social, na construção, na ciência e na saúde.

Ora, num cenário ideal haveria apenas lugar à mera substituição de empresas, empregos e pessoas. Contudo, o processo implica diferentes variáveis tais como os índices de crescimento económico, as efetivas capacidades de investimento das organizações e a indispensável reconversão (e formação) da força de trabalho. De resto, este último desafio obrigará à responsabilidade conjunta de empresários, funcionários, colaboradores, Governo, sindicatos e partidos. Pois mais de 1,8 milhões de trabalhadores terão obrigatoriamente de aprender a lidar, conhecer e dominar outros aparelhos, ferramentas e equipamentos. Sendo verdade que o tempo urge pois a transição para uma economia digital assenta sobretudo na velocidade, agilidade e rapidez.

Tríade de exigências distintivas para um leque de profissões emergentes que a tecnologia tornará essenciais até 2030. Assistente de Felicidade (estratégias personalizadas de motivação, satisfação e bem-estar laboral), Guardião de Identidade Digital (confirmação de factos, filtrar e repor a verdade digital), Consultor de Agricultura Vertical (assegurar a instalação das hortas verticais, a sua manutenção e a formação dos utilizadores), Líder de Ética Empresarial (enquadrar a forma como os trabalhadores devem posicionar-se em plataformas digitais) ou Gestor de Realidade Virtual para Retalho (desenvolver, programar e gerir experiências de realidade virtual) serão apenas algumas dessas revolucionárias carreiras. Porventura, a maioria delas longe da reconversão profissional dos trabalhadores nacionais, mas perto dessa jovem geração lusa sagaz, talentosa e qualificada.

A mesma massa crítica que certamente acompanhou a última edição da CES (Consumer Electronics Show), a maior feira de tecnologia do mundo, que apresentou as últimas novidades em Inteligência Artificial, Realidade Aumentada, Realidade Virtual, Impressão 3D, Internet das Coisas, Big Data ou Manufactura 4.0. Um futuro de otimismo povoado de cidades inteligentes, casas conectadas, carros autónomos, assistentes digitais e robôs pessoais. Uma bolha onde é fácil acreditar que a tecnologia, a engenharia e os algoritmos detêm todas as respostas.

Atente-se, aliás, numa das maiores estrelas da CES 2019: o Impossible Burger 2.0. Apoiado pelo fundador da Microsoft, Bill Gates, o hambúrger vegetal da Impossible Foods utiliza tecnologia para replicar artificialmente o sabor da carne. A intenção segundo os promotores é combater os efeitos da criação de gado no aquecimento global. Na verdade, o Impossible Burger 2.0 requer menos 75% de água, para além de emitir menos 87% de gases poluentes. Acrescente-se que tem menos calorias, menos gordura saturada e menos sal que um hambúrger tradicional. Remate-se ainda que o Impossible Burger 2.0 pode servir-se ao nosso gosto: bem ou mal passado. Evitando, assim, qualquer outra suposta indigestão tecnológica.

José Pedro Salas Pires, Presidente da ANETIE

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