Opinião

A invasão dos ninjas digitais

Ninjas digitais

A última década trouxe uma tendência de dar outros nomes às coisas para invocar os espíritos da inovação e descascar a pele das corporações obsoletas

No tempo em que o léxico de internet ainda fazia franzir o sobrolho à velha guarda, escrevíamos administrador-delegado em vez de CEO e fugíamos do ‘country manager’ como o mafarrico da cruz. Foi mais ou menos na altura em que as empresas deixaram de ter empregados e trabalhadores e passaram a ter “colaboradores”, um eufemismo estranho cuja pretensão parece ser distinguir assalariados de profissionais que vestem a camisola. Como se fosse impuro trabalhar para receber um salário ao final do mês; afinal, dizem-nos os gurus do ‘coaching’, devemos escolher uma profissão que amamos para não trabalhar um único dia da nossa vida.

Agora temos “ninjas digitais”, “guerreiros das vendas” e “evangelistas” não religiosos.

A onda de reformulação da nomenclatura das profissões foi bater em todas as costas e é um fenómeno que não está isolado. A última década trouxe uma tendência de dar outros nomes às coisas para invocar os espíritos da inovação, descascar a pele das corporações obsoletas, vestir com uma roupagem moderna aquilo que, na verdade, não foi alterado.

Muita da responsabilidade por esta mania de empacotar com outro nome e vender como novo pode ser atribuída aos génios de Silicon Valley, onde um director de marketing passou a ser um “branding rockstar” e um responsável de tecnologia passou a ter “ninja digital” nos cartões de visita.

Tudo bem, uma startup com empreendedores arrojados que se atiram ao mercado para trazer inovação pode bem divertir-se a criar cargos como “princesa da segurança”, “director de felicidade” ou “herói do retalho.” Não deixa de soar um pouco ridículo, mas Silicon Valley é o sítio das máquinas de sumos conectadas e das meias inteligentes, onde um miúdo de fato de treino monta robôs tipo Skynet nos tempos livres.

O que estará por trás deste fenómeno?

Uma das explicações é a escassez de talento em certas áreas, o que faz com que as empresas tentem apimentar os cargos para atrair pessoas com um sentido de carreira aspiracional.

Este refrescamento, dependendo de como é usado, pode ter efeitos muito diferentes. Não é difícil perceber que, numa altura em que a vida profissional consome tanto tempo e causa tanto stress, pensar no emprego de uma forma diferente ou aspiracional pode dar um novo fôlego a uma carreira. Ter um pouco de irreverência mesmo em cargos cinzentos não fará mal a ninguém.

Menos positivo é usar estes títulos criativos para esconder o que é pedido, para dar a entender que a empresa tem uma estrutura moderna quando na verdade é um poço sem fundo de hierarquias, ou como forma de tornar mais apelativa uma posição pré-existente que é aborrecida, difícil ou mal paga – pior ainda, tudo isto junto. Há ainda as posições-fantasma, em que o título do cargo é tão vago que a pessoa que o ocupa não tem de dar explicações a ninguém. Quem é que vai pedir contas a um “evangelista-chefe” ou a um “profeta digital”? Não sei se é com isto que se parece uma prateleira dourada, mas certamente fica bem no currículo do LinkedIn.

A criatividade no nome dos cargos também pode ser uma forma infalível de pagar menos a alguém por trabalho semelhante. “Não, minha cara, você é assistente. Ele é curador de tempo pessoal.” Temos ainda os “arquitectos” de coisas etéreas (não de edifícios), os “gurus”, os “mágicos” e os “embaixadores.” Confessemos: quem é que não gostaria de preencher fichas com “semi-deus do marketing” em vez de “gestor de marketing directo”? (E sim, isto do “semi-deus” é uma designação que existe mesmo, em vários cargos e várias empresas). Quase tão bom como “suserano digital” em vez de administrador do site.

Não é que tenhamos de alinhar todos pela mesma cartilha. Ide e contratai ninjas digitais, se isso torna o trabalho mais apelativo [não esquecendo que ninja é um espião e assassino, vejam lá isso]. Mas é muito mais importante modernizar a gestão das empresas e contratar bons chefes que ter um “chief unicorn officer” e um “chief happiness officer” que não mudam nada.

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