A (ir)relevância de Donald Trump

Escutem. Conseguem discernir alguma gritaria mediática em torno de Donald Trump? Não? É curioso. Assinalou-se na semana passada o primeiro aniversário do violento ataque ao Capitólio e ele, um dos grandes protagonistas desse dia, parece ter encravado o botão "mute" na actualidade política.

Este aniversário marcou também um ano desde que o ex-presidente dos Estados Unidos foi banido do Twitter e do Facebook, e dá a sensação de que lhe calhou aquela carta do Monopólio que manda ir directos para a prisão sem passar pela casa de partida.

Não é por falta de vontade, mas Trump ainda não conseguiu recuperar o megafone que perdeu e nenhuma das alternativas se apresentou até agora como solução sólida.

Por exemplo: o ex-presidente publicou ontem um comunicado no seu blogue site denunciando o senador republicano Mike Rounds, do Dakota do Sul, porque este deu uma entrevista à ABC News a admitir que não houve fraude na eleição de 2020. Tal posição é incompatível com a linha oficial do partido, a "Grande Mentira" segundo a qual milhões de votos a favor de Trump foram roubados e entregues a Joe Biden.

Mas a diatribe que Trump publicou sobre Mike Rounds não fez grandes ondas online. A ausência de uma conta verificada nas principais redes sociais faz uma diferença gigantesca no poder do ex-presidente de dominar a discussão pública. É notável ver como o líder do partido republicano, ainda extremamente popular entre o seu eleitorado e determinante nas suas linhas orientadoras, está a lutar para manter intacta a sua relevância mediática.

É nesse contexto que se enquadra a Truth Social, a rede social em que a Trump Media está a trabalhar há vários meses - empresa que tem como CEO o lusodescendente Devin Nunes, que optou por deixar o congresso para abraçar o projecto. A data de lançamento prevista é 21 de Fevereiro, mas o Washington Post avançou ontem que isso pode não acontecer. O desenvolvimento está atrasado e poderemos estar a meses de a plataforma aparecer totalmente operacional - um golpe para os planos que Trump tem de desempenhar um papel central na campanha para as eleições intercalares que vai dominar 2022.

O WaPo sublinhou neste artigo algo que, a um ano de distância, podemos ser tentados a esquecer: até ser expulso do Twitter e Facebook, Trump tinha conseguido uma das bases de seguidores mais maciças e envolvidas de que há registo em figuras públicas. A sua esfera de influência era tão grande que um tweet bastava para mexer com o mercado. As suas palavras chegavam tão longe que há um ano, no ataque infame ao Capitólio, juntaram-se mais de 10 mil apoiantes para tentar parar o processo democrático sob a crença de que estavam a defender o seu presidente e o seu país.

Por mais que as hostes conservadoras odeiem a "Big Tech" e denunciem o que consideram ser a censura do Twitter e do Facebook, a verdade é que estas redes sociais foram, e são ainda, imperativas para a disseminação das suas mensagens. Serem banidos delas oferece um reforço momentâneo da teoria da conspiração, mas no longo prazo essa ausência resvala para a irrelevância. E é sabido como estas redes são importantes para manter o fluxo de donativos a chover para as campanhas, algo que Donald Trump e os operacionais da sua futura campanha sabem muito bem.

O interessante aqui é ver que Trump opta por não eleger uma das redes sociais que se tornaram populares entre os conservadores como alternativas ao mainstream, da Gab à Gettr e à Parler, para voltar a falar ao megafone virtual. Porquê? Dizem insiders que ele acredita que controlar a sua própria rede social será melhor e mais lucrativo.

A lógica disto é compreensível, mas como a Trump Media está a verificar no terreno, desenvolver uma plataforma de rede social para as massas não é o mesmo que pôr um blogue de pé. A primeira versão do site foi para o ar em Outubro de 2021 e retirada quase de imediato, depois de um grupo ter publicado a foto de um porco a defecar com o nome de utilizador "donaldjtrump." Isto de não ter limites nem monitorização é uma faca de dois gumes, certo?

Os problemas continuaram quando os criadores do software open-source usado no desenvolvimento, Mastodon, disseram que a Trump Media estava a violar os termos de utilização do mesmo.

E agora, a mês e pouco da suposta data de lançamento, as fontes que falaram com o WaPo avisam que o calendário não deverá ser cumprido.

Até lá, o ex-presidente continua a publicar "statements" no seu blogue site que roçam a inconsequência, e isso é ao mesmo tempo curioso e fascinante de ver acontecer.

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