“A Laurinda estuda nos computadores”

As raparigas representam apenas 17% dos estudantes de TIC na média dos Estados-membros.

Na canção Postal dos Correios, escrita há 24 anos por João Monge e interpretada por Tim e Rui Veloso, quem estuda nos computadores é o rapaz. A rapariga, Laurinda, faz “vestidos por medida”.

Já não era esse, felizmente, o papel que a sociedade atribuía às mulheres na época. Nem acredito que passasse sequer pela cabeça do autor fazer a apologia de estereótipos de género. A letra – por sinal, lindíssima - assume o contraste entre um país rural, mais antiquado, e a cidade para onde se adivinha ter partido o autor ou autora do postal.

Contudo, a ideia de que os computadores são coisa de homens, longe de representar uma visão pitoresca do passado, continua ainda hoje bem viva.

É um preconceito que se começa a formar desde as brincadeiras de infância, nas quais os videojogos e os computadores são conotados com os rapazes como antes eram os carrinhos e os piões. E que se manifesta mais tarde nas escolhas de carreira. Um recente estudo europeu revelou que apenas 3% das adolescentes se imaginavam a seguir carreiras nas Tecnologias de informação e Comunicação (TIC), por comparação com cerca de 20% dos rapazes. E a realidade é que continuam a ser muito poucas a fazê-lo.

Ao longo das últimas décadas tem-se registado, em Portugal e em toda a Europa, uma evolução muito significativa da percentagem de mulheres nas chamadas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Mas as diferenças continuam a ser marcadas, sobretudo nas TIC, incluindo em áreas emergentes como a Inteligência Artificial e a Robótica.

De acordo com o Eurostat, o gabinete de estatísticas da União Europeia, as raparigas representam apenas 17% dos estudantes de TIC na média dos Estados-membros. E em Portugal a percentagem é ainda mais modesta, não indo além dos 12%. A isto acresce o que na gíria científica se chama de efeito de leaky pipeline - literalmente: canalização com fugas -, segundo o qual, mesmo entre as mulheres que optam por estes percursos, a probabilidade de abandono em favor de uma outra área é muito superior à dos homens. No secundário, na universidade, e no momento de ingressar no mercado de trabalho.

Esta realidade é negativa para as mulheres e é negativa para a sociedade em geral. Para as mulheres, porque impede muitas de seguirem a sua vocação e, facto não negligenciável, de acederem a profissões que hoje em dia se encontram entre as mais requisitadas e melhor remuneradas. Para a sociedade, porque esta é privada de uma enorme bolsa de talento, desperdiçando criatividade, competência e capacidade de inovação.

Existe ainda um outro risco, menos palpável, mas bem real, de retrocesso em termos de direitos humanos, nomeadamente no que respeita à igualdade dos géneros. Num mundo em acelerada transição digital, onde os dados têm um peso cada vez mais preponderante, as mulheres têm de ser intervenientes ativos da mudança.

Sem questionar as boas intenções da esmagadora maioria dos cientistas e técnicos envolvidos no desenvolvimento destas tecnologias, estamos mesmo dispostas a deixar que os programas de Inteligência Artificial, que irão analisar os nossos perfis e influenciar as nossas escolhas, sejam essencialmente desenvolvidos por homens? É uma pergunta que todas as mulheres, que todas as raparigas, não podem deixar de se colocar.

Recentemente, entreguei no Parlamento Europeu o relatório “Closing the Digital Gender Gap”, que foi discutido na Comissão FEMM – Direitos das Mulheres e igualdade dos Géneros -, no qual abordamos estas problemáticas e apontamos possíveis soluções.

Há muito trabalho que pode ser feito a este nível. Desde logo no plano da Educação, sensibilizando as raparigas para a importância destas áreas, definindo conteúdos que lhes sejam mais apelativos, apresentando-lhes casos de sucesso de mulheres que vingaram nas mesmas e que podem servir de referência. Mas também ao nível dos setores dos média, da cultura e do audiovisual, nos quais por vezes se contribui inconscientemente para a eternização de certos estereótipos. Sem esquecer o mercado de trabalho, onde também há um trabalho de mobilização a fazer.

Cada vez mais, não existem carreiras de rapaz e carreiras de rapariga. Existem o talento, a vocação e a dedicação. E só estes devem contar.

Maria da Graça Carvalho, eurodeputada

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