A liberdade está na agulha de uma seringa

Era Sábado de manhã quando as filas começaram a formar-se na faculdade comunitária de Glendale, cidade a 16 quilómetros da baixa de Los Angeles. O espaço foi transformado num local de vacinação em massa contra a covid-19 e está extremamente bem organizado: voluntários de sobra a orientar as pessoas, quiosques de registo e verificação de identidade em velocidade sónica e informação de sobra espalhada pelas paredes.

Entre o início da fila e a picada no braço esperei apenas 15 minutos, maravilhada com o facto de toda a gente respeitar a distância social ao milímetro. Talvez o único sítio e momento em que estive no último ano onde toda a gente cumpriu as regras, o que foi estranhamente satisfatório.

O ambiente era de íntima satisfação. Muitos sorrisos, pessoas que foram em grupos de três, famílias, casais, amigos. Enquanto caminhava para o sítio onde ia levar a vacina da Moderna, pensei na manifestação recente que houve em Lisboa onde negacionistas gritaram por liberdade e cantaram "Ó rama ó que linda rama", por algum motivo. E eu aqui, prestes a tocar na primeira bóia de salvação que avistei no último ano, ciente de que a liberdade, por estes dias, está na agulha de uma seringa.

Cada um busca o paraíso que quer, e o meu tem um formato rectangular e mostra as datas de toma da vacina contra a covid-19. Mas veja-se a ironia do momento em que vivemos: depois de meses intermináveis de confinamento e uma corrida contra o tempo para encontrar a vacina que nos libertasse deste inferno, temos várias vacinas e uma multidão de gente que se recusa a tomá-las, enquanto vocifera contra as medidas restritivas que só perduram porque o vírus continua a infectar tudo o que toca. Sabem o que é que ajudava a eliminar o vírus? A vacina.

É certo que em Portugal e noutros países da Europa a disponibilidade de doses é o maior problema neste momento, mas não tenho motivos para acreditar que aí será diferente do que se está a passar aqui. Vejam: 40% dos militares da Marinha norte-americana recusaram-se a tomar a vacina contra a covid-19. Sabemos que nenhum deles é anti-vacinas porque, para se alistarem e serem integrados na Marinha, são obrigados a tomar uma bateria delas, desde as vacinas contra o sarampo e poliomielite às injecções que previnem a rubéola e o tétano.

O país nem sequer está a administrar AstraZeneca ou Johnson & Johnson, as duas vacinas que foram mediaticamente abalroadas por causa de um número de casos tão pequeno que é irrelevante em termos estatísticos. Mais, a Universidade de Oxford concluiu que a prevalência de coágulos sanguíneos após a toma é equivalente em todas as vacinas. O estudo indica que 4 em cada um milhão de pessoas que tomaram a vacina da Pfizer e da Moderna tiveram uma trombose venosa cerebral (TVC), contra 5 em cada um milhão que tomaram AstraZeneca. Agora o dado mais importante: o risco de TVC é bastante mais elevado para aqueles que contraem covid-19, 39 em cada um milhão.

O medo da vacina, a teimosia do negacionismo, a confusão do que é a liberdade - tudo isto vai atrasar o fim da nossa caminhada por este túnel escuro que é a covid-19. Quem pensa que a pandemia se vai evaporar à conta de manifestações no Rossio que vá abrir um livro de história. Há cem anos, a pneumónica matou entre 50 a 100 milhões de pessoas porque não havia vacina e muita gente se recusou a usar máscara ou a cumprir distanciamento.

Essa gripe matou mais de 100 mil portugueses, incluindo Amadeo de Souza Cardoso e Santa-Rita Pintor, duas perdas irreparáveis de uma Primavera artística que antecedeu a ditadura. Havia cadáveres pelo chão de Lisboa, à espera de irem passar a eternidade a valas comuns. A mesma Lisboa por onde passaram manifestantes incomodados por máscaras e agulhas de seringa, cantando o hino nacional que as 16.945 vítimas portuguesas de covid-19 nunca mais vão ouvir tocar.

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