Opinião

Opinião. O maior economista do século

O economista a que me refiro é Kenneth Arrow, que morreu na quarta-feira com 95 anos. Arrow era uma lenda na academia

Morreu o maior economista dos últimos 100 anos. Não estou a falar de Keynes, a quem se atribui o começo da macroeconomia. Quem estuda hoje macroeconomia avançada encontra as ideias de Keynes em 5% a 20% do material; as ideias do economista a que me refiro estão na base de quase toda a macroeconomia moderna. Também não estou a falar de Amartya Sen, o economista vivo mais famoso.

Sen ganhou um prémio Nobel por ter provado um teorema que é uma “mera” extensão de um grande teorema provado por este economista. Ele praticamente inventou o estudo da economia do ambiente e da saúde. Descobriu técnicas que estão na fundação de um ramo inteiro da estatística moderna, e todos os engenheiros que já usaram programação dinâmica talvez não saibam que Richard Bellman sempre disse que o seu trabalho surgiu como o passo seguinte depois de ler um artigo deste economista.

O economista a que me refiro é Kenneth Arrow, que morreu na quarta-feira com 95 anos. Arrow era uma lenda na academia. Até há morte continuava a ir quase todos os dias para a universidade de Stanford, de onde se tinha reformado há décadas, mas onde mantinha gabinete. Continuava a participar nos seminários e mostrava tanta ou mais inteligência, acutilância, e originalidade do que qualquer economista de qualquer idade. Uma piada frequente entre economistas é que a maior injustiça na atribuição dos prémios Nobel era Arrow ainda não ter ganho mais dois ou três.

Uma história pessoal talvez consiga descrever a admiração e respeito que Arrow despertava. Durante alguns anos, eu fui o organizador da palestra em honra de Arrow na universidade de Columbia, onde ele obteve o seu doutoramento. Isto implicava telefonar a um economista muito distinto e, por isso, muito ocupado, e pedir-lhe para dar uma palestra na universidade a ser publicada num livro. Porque a maioria dos economistas não publica livros, mas antes artigos científicos, e tendo em conta o trabalho que isto implica, com estas condições seria quase impossível convencer qualquer académico de topo a aceitar.

Mas bastava dizer que Arrow estaria presente e que, no fim da palestra, ofereceria uma discussão imediata ao conteúdo, que seria por sua vez também publicada no livro, para não me lembrar de alguma vez alguém ter dito que não.

No jantar a seguir à última palestra em honra de Arrow que organizei, há dois anos no apartamento do economista Joe Stiglitz, estavam presentes quatro prémios Nobel da Economia e mais dois perenes candidatos. Todos com opiniões fortes e gosto em exprimi-las. Como habitual, as doze pessoas à volta da mesa rapidamente se dividiram em múltiplas conversas a dois ou três. A exceção acontecia sempre que Ken Arrow, com os seus 93 anos, falava. Calavam-se todos, para ouvir o que dizia o mestre.
É tão discutível dizer que Arrow foi o melhor do século como é afirmar o mesmo sobre Pelé ou Eusébio. Dos que eu vi em ação, intelectualmente ativos e a discutir economia, Arrow era o maior.

Professor de economia na London School of Economics

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