A Memória e outras preocupações

Nuno Artur Silva está preocupado com os jornalistas do Global Media Group. Ouvimo-lo da sua própria boca nesta semana, solidário com as convulsões que este grupo, a que pertence o Dinheiro Vivo, tem sofrido nos últimos anos e que obrigaram a cortes duros sucessivos em nome da estabilização de uma empresa privada. É uma realidade que o hoje secretário de Estado que tutela os media conhece um bocadinho. Para quem não sabe ou não se recorda, antes de ingressar no governo de António Costa, Nuno Artur Silva foi durante um ano curador do anterior suplemento do Diário de Notícias, 1864, cujos temas ajudava a definir semanalmente, já num período desafiante do GMG.

Passando a estranheza de ver como algo normal que um governante se pronuncie sobre empresas de capitais exclusivamente privados da área que tutela - ainda mais tratando-se da imprensa - é refrescante saber que está "atento". Muitos decerto duvidavam já por esta altura se a pasta verdadeiramente existia - um simples exercício de busca no google pelo nome do governante ou pelas funções que desempenha revelam não mais de meia dúzia de resultados, incluindo esta recente preocupação que partilhou com os deputados.

Terá estado atarefado dentro do gabinete. A definir, por exemplo, planos para a RTP no âmbito de um contrato de concessão do serviço público que devia ter sido concretizado em 2019 mas que apenas agora vê a luz. Planos cuja aprovação deixa, naturalmente, à vontade da recém-nomeada administração - são sugestões, apenas. Como acabar com a RTP Memória, companhia única de uma grande fatia da envelhecida sociedade portuguesa, para pôr no seu lugar canais de música para quem só a ouve de forma digital ou programas infanto-juvenis para a geração do streaming que não passa voluntariamente um minuto a ver televisão.

Mas vamos, são apenas sugestões! Até porque a RTP tem administração própria e é paga pelos portugueses, por cada um de nós, e o investimento no canal público deve ser ponderado pelo que melhor serve o interesse do povo. Por isso, o secretário de Estado preocupa-se em contribuir.

Infelizmente, está mais preocupado com conteúdos que não lhe cabe definir e com o que se passa em grupos privados do que em resolver problemas antigos que, esses sim, lhe cabe solucionar. Como as pilhas de falsos recibos verdes que os trabalhadores da estação pública de televisão repetidamente denunciam mas que se eternizam. Ou os salários congelados há anos na RTP. Ou mesmo em revelar que plano traçou para pagar os novos investimentos que propõe ao mesmo tempo que prevê um corte brutal na receita publicitária.

Mas talvez só ainda não tenha chegado a essa parte. Afinal, só é secretário de Estado há ano e meio. E até já anda preocupado...

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