A mentira e as longas carreiras políticas

O filósofo David Livingstone Smith, autor do livro "Por que Mentimos: Os Fundamentos Biológicos e Psicológicos da Mentira", sustenta que, desde os primórdios, há seres humanos para quem a regra é dizer o que os outros desejam ouvir. Considera também que, como em qualquer outro assunto, quanto maior for a prática da mentira, melhor é o desempenho, que, no caso de um político, significa que maior é a desonestidade.

O desempenho eficaz, motivado pela prática, vem a propósito de um daqueles assuntos invulgares em que a sabedoria popular apresenta a mesma conclusão que a ciência: entre todas as profissões, a dos políticos é a que tem os mentirosos mais eficazes porque, acrescento eu tendo em conta Smith, são os seus maiores praticantes. Estes, ao contrário dos atores, que vivem muitas vezes de dissimular, não merecem, no entanto, aplausos por tal feito.

Segundo os psicólogos sociais, quem tem uma longa carreira política, tende a ser egocêntrico e a ver-se como um Messias, mente mais vezes, com mais intensidade e, portanto, melhor do que qualquer outro mortal. Acresce que também o faz com mais facilidade, que muitas vezes até chega a acreditar nas suas próprias mentiras, tornando-as ainda mais convincentes para os outros. A facilidade com que mentem decorre de considerarem que os eleitores acreditam que, no futuro, tudo será diferente e, por isso, desejam continuar a ser enganados para continuar a sonhar.

Não se trata, naturalmente, de considerar todos os políticos como mentirosos, nada disso. Trata-se de considerar que muitos, com longa carreira política, assumidos como redentores e muito egocêntricos, sabem, por experiência, que a mentira, para se tornar credível, precisa de ter elementos de "emoção". São mentirosos muito eficazes, que sabem que uma mentira se pode tornar mais credível que a própria verdade. Esta, quando nua e crua, muitas vezes incomoda.

O político mentiroso usa essa habilidade para enganar, criar conflito, destruir a imagem do outro e, no final de tudo, tentar beneficiar da discórdia gerada. Promessas não cumpridas e ataques a adversários sobre fatos não comprovados são então as suas estratégias.

Ao longo dos séculos, diversos filósofos analisaram a mentira e os seus meandros. Para Nicolau Maquiavel (1469-1527), as mentiras de um político estavam plenamente justificadas porque, supostamente, eram motivadas pela convicção de que os fins justificam os meios. Um político mentiroso encontra justificação para a sua existência neste autor e no sucesso que, pelo menos durante algum tempo, poderá acabar por ter.

Por sua vez, o holandês Hugo Grotius (1583-1645) considerava a mentira uma agressão aos direitos dos outros, mas tolerava as inverdades ditas em nome de um bem maior. O problema é que um político que se vê como um Messias considera que as suas mentiras são sempre motivadas por um bem maior, mesmo que, de imediato, sirvam para livrá-lo de suspeitas de falcatruas feitas em benefício pessoal.

Se, no entanto, a moral é a principal bandeira para os eleitores, o melhor é optar pelo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Para Kant, o que existe é um dever perante toda a humanidade de se apresentar sempre a verdade, sem distinções e em qualquer situação.

Quando um político mente pode até conseguir temporariamente o que deseja e ter sucesso pessoal, mas de nada vale o facto de uma parcela dos eleitores insistir em se deixar iludir. A mentira pesará sempre na consciência como uma agressão a todos, como promotora da injustiça, do dano ou do sofrimento e é, por isso, moralmente errada. Com o tempo, a personalidade de um político que mente passa a ser sufocante e pouco agradável, pois passa a ferir os outros, cultivando os seus interesses sem o mínimo de respeito.

Pouco a pouco, o político mentiroso passa a estar cada vez mais isolado e visto de maneira negativa porque não costuma pensar sob uma perspetiva coletiva, porque apenas enaltece a própria imagem, porque qualquer feito, por menor que seja, é motivo para exaltação, porque finge para si e para os outros sobre a realidade, porque carrega uma espécie de cegueira comportamental que o inibe de entender que cada um tem uma crença, raciocínio e necessidades diferentes das suas, porque não se sensibiliza muito com os problemas dos outros, dado que não lhe sobra espaço para se sensibilizar com qualquer drama que não lhe pertença.

Óscar Afonso, docente da Faculdade de Economia da Universidade do Porto e sócio fundador do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF)

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