A minha avó

Estou eu a viver com a minha avó, já se contava mais de um ano de estadia, quando ela me pergunta o que é que eu faço na vida. Eu não dava muitas explicações para não me fazerem muitas perguntas - regra de sobrevivência para viver em liberdade -, por isso a minha avó raramente me fazia perguntas. "Sou jornalista avó", respondi com orgulho do alto dos meus 21 anos e a tropeçar num curso de Direito onde não sabia bem quais as cadeiras em que estava inscrita e muito menos o horário. A minha vida era confusa e a minha avó não tinha paciência, idade ou educação para grandes confusões. Almoçava-se às 13h e jantava-se às 8h em ponto, com pratinho para o pão, copos de água e vinho, sopa, prato e sobremesa e demorava-se a jantar o tempo que a conversa demorasse. Quem chegasse cinco minutos atrasado sem avisar jantava na cozinha. "Mas jornalista daquele tipo de jornalista que pendura o lápis atrás da orelha?". Profissional, quer avó dizer? Claro que sim. Coisas sérias, fazia eu: falava com membros do Governo, entrava em sítios onde só os jornalistas e pessoas importantes entravam e assinava textos que iriam alterar o mundo, textos esses que estão hoje encadernados com argolas e capa de plástico numa prateleira em casa dos meus pais e que nem me atrevo a folhear. A minha avó fez um sorriso condescendente que a minha mãe herdou e mudámos de assunto. A minha avó não me levava a sério, mas como eu achava que a minha avó era de outra época - tinha passado pela implantação da República, duas revoluções, duas guerras mundiais, a guerra civil de Espanha e a guerra colonial - não me amolguei. O meu orgulho era muito maior do que a sua história.

A minha avó não era uma avó qualquer. "A mim não me tomam por parva", dizia quando alguém a tentava enrolar iludido pelos cabelos brancos. E desligava o aparelho quando achava exagerados os níveis de parvoíce. "Podem falar à vontade que eu agora já não oiço nada", e continuava no seu crochet. Mas a minha avó não era uma avó qualquer por duas particularidades que nos dias de hoje dariam direito a pena de prisão: não tinha paciência para crianças mimadas e mal-educadas e tinha uma clara predileção pelos netos em detrimentos das netas. Dizia coisas deliciosas comos esta: "Há crianças que são mais apetitosas nas fotografias porque não há perigo de acordarem". No entanto, quando crescemos, bem educadinhos, não havia noite em que eu não tivesse um quadradinho de chocolate na almofada. Ensinou-me a jogar canastra como gente grande: não se fala quando se joga, não se põem os cotovelos na mesa, não se tem mau ganhar e muito menos mau perder e não se fazem jogadas parvas - é para jogar com atenção ou não vale a pena. Tinha 14 anos. Quanto aos netos, nem se preocupava em disfarçar a diferença de tratamento. "Eu puxo por quem puxa por mim", é uma das frases que ficou. E os netos puxavam quase todos; as raparigas, umas cabecinhas no ar.

A minha avó não era uma avó qualquer. Tinha uma personalidade de ferro, uma visão futuro própria de grandes líderes, uma inteligência viva e rara e uma capacidade de leitura da natureza humana que é um dom que não encontrei em mais ninguém. A minha avó era única porque era uma avó "sem pieguices", expressão que tantas vezes usava. Lembrei-me da minha avó porque não imagino o que ela diria dos meninos, das mães, da educação e das pieguices de hoje. A minha avó certamente desligaria o aparelho perante tanta parvoíce.

Jurista

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