A miscigenação social

Desde que em 1500 navegadores portugueses encontraram índias nas praias de Porto Seguro que a história do Brasil é a história da sua própria miscigenação.

Mais tarde deram-se novas miscigenações, entre mais americanos indígenas, mais portugueses, os primeiros africanos e todos os outros europeus. Resultaram nos cinco brasis de que o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) fala em “O Povo Brasileiro”- o Brasil sertanejo, o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil caipira e o Brasil sulino, que entretanto também se foram misturando e remisturando ao longo das eras.

No Brasil moderno falta ainda completar a miscigenação entre as etnias historicamente mais separadas entre si: a do Brasil dos ricos e a do Brasil dos pobres. Ainda e sempre a maior chaga social local.

A Era Lula+Dilma, se mais méritos não teve, pelo menos ajudou, “como nunca antes na história do país”, o bordão preferido de Lula, a combater o apartheid financeiro brasileiro. E esses efeitos perduram. E vão perdurar.

Vale a pena fazer uma pausa no caos político e económico, fruto da guerra entre um grupo de irresponsáveis, liderado pelo presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, e uma presidente falha de competências e desfrutar das tentativas de mestiçagem socioeconómica em curso.

Essa mestiçagem aparece em forma de notícias de jornal. Conta a Folha de São Paulo que, segundo o Plano Diretor do vanguardista, mas incompreendido, prefeito de São Paulo Fernando Haddad, vão avançar mais ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social). As ZEIS são áreas de habitação social dentro dos bairros nobres da cidade.

O objetivo é transformar São Paulo cada vez menos numa cidade de guetos, em que os ricos moram no anel mais próximo do centro, as empregadas dos ricos no anel seguinte, as empregadas das empregadas dos ricos no seguinte e assim sucessivamente numa espécie de galáxia urbana excludente.

Claro que o foco da notícia está no facto dos moradores mais pobres dos bairros mais ricos terem de percorrer quilómetros para fazer compras num supermercado acessível ao seu bolso porque os preços do comércio da região são proibitivos. Ainda há séculos de desigualdade a combater mas, como diz um secretário de Haddad, o que esses habitantes poupam (em tempo e dinheiro) nos transportes para ir para os trabalhos compensa.

Mesmo jornal, mesma página, quatro dias depois: “Abismo entre escolas ricas e pobres recua”, de acordo com os resultados de um exame nacional. A primeira palavra do título – “abismo” – demonstra que a miscigenação ainda é uma utopia mas a última – “recua” – anima-nos a sermos utópicos.

No complemento da notícia, diz-se que o hiato no nível da educação entre São Paulo, a mais rica, populosa e poderosa das 27 unidades federativas do país, e as outras unidades também diminuiu.

Finalmente, a prisão de Marcelo Odebrecht, dono da maior construtora civil do país e por consequência um dos homens mais ricos da América Latina, é sintomático porque na sociedade nada deve ser mais igualitário do que a justiça.

Ele e outros milionários e poderosos, acusados de corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro no âmbito do escândalo da Petrobrás, partilham o mesmo estabelecimento prisional com o réu comum, sintoma se não do fim, do princípio do fim da impunidade no Brasil. E sintoma da miscigenação até na população carcerária.

Não custa sonhar que os bairros, as escolas e mesmo as prisões do Brasil caminhem, em passos lentos mas seguros, para serem frequentadas por ambas as etnias económicas do país.

E que elas, de tão miscigenadas, como os brasis de Darcy Ribeiro, um dia mal se distingam entre si.

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