Opinião

A mobilidade está a mudar. Não perca a viagem

Cliente da Lime a utilizar trotinete em Madrid, Espanha. REUTERS/Susana Vera
Cliente da Lime a utilizar trotinete em Madrid, Espanha. REUTERS/Susana Vera

No último século, o peso do automóvel nas cidades é cada vez maior. Os carros alteraram profundamente a organização do espaço nas cidades, a mobilidade dos cidadãos e, progressivamente, a nossa saúde.

Em Portugal existiam, em 2017, quase 620 carros por cada mil habitantes e, só em Lisboa, entram diariamente 370 mil carros. Apesar das alternativas de mobilidade e das várias restrições impostas, este número ainda não está a diminuir. O que falta? A meu ver, além de uma contínua melhoria das infraestruturas, própria da adaptação às novas alternativas de mobilidade, falta-nos mudar os hábitos. E estes são, muitas vezes, mais desafiantes que a definição de políticas ou a construção de infraestruturas.

No entanto, não faltam motivos para mudar os hábitos de mobilidade, trocar o carro pelo transporte público, complementar o percurso com soluções de micromobilidade. Num estudo divulgado em 2018, a Organização Mundial de Saúde alertava para o facto de, a nível global, nove em cada 10 pessoas respirarem ar poluído e contaminado. Segundo a mesma entidade, todos os anos morrem sete milhões de pessoas por causas diretamente relacionadas com a poluição e os níveis de contaminação permanecem “perigosamente elevados” em várias regiões do globo. Em Portugal, cidades como Almada, Cascais, Lisboa, Portimão, Albufeira, Faro, Aveiro, Setúbal e Vila do Conde estão entre os locais identificados como os mais poluídos. Adicionalmente, e já no início deste ano, um estudo, publicado no European Heart Journal, revelou que, em 2015, a poluição do ar causou 15 mil mortes em Portugal, ou seja, 138 mortes por cada 100 mil habitantes. Este número é muito superior, por exemplo, ao número de mortes na estrada, no mesmo ano (473). Na União Europeia, o número ascende a 659 mil pessoas.

Responsável por 20% das emissões de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera, é indiscutível que a circulação automóvel é uma das variáveis que mais contribuiu para a realidade que descrevi anteriormente. E, apesar de Portugal ser o país da União Europeia com melhores indicadores relativamente à emissão de CO2 por veículos novos, a Agência Europeia do Ambiente alertou para o facto de ainda serem emitidos 105 gramas por cada quilómetro percorrido.

Além do fator ambiental e de saúde, não posso deixar de destacar um fator chave para as diferentes gerações: o tempo. Quando falamos no uso de veículos particulares, há dois dados estatísticos que me vêm imediatamente à cabeça: um carro permanece inativo durante 97% do seu tempo de vida e, quando é utilizado, 70% das vezes transporta apenas o condutor e em viagens pela cidade, e 30% do tempo que este está ao volante, está à procura de estacionamento. Faz-nos pensar se estamos realmente a optar pela melhor alternativa.

Ao entrar na cidade, as alternativas sustentáveis, onde as trotinetes elétricas se incluem, imperam e impõem-se como a opção mais rápida, eficaz e acessível. Por oferecerem um sistema de mobilidade partilhada, são capazes de manter a taxa de ocupação média de 100%, o que não acontece nos serviços de carsharing, por exemplo, e além disto, as trotinetes não emitem CO2 para a atmosfera.

As trotinetes já não são uma novidade e estão a ser integradas em cidades de todo o mundo para avaliar o impacto que têm para o ambiente. Partilho, a título de exemplo, um projeto-piloto realizado na cidade de Portland, durante quatro meses, através do qual o Departamento de Transportes da cidade constatou que as trotinetes são uma solução para os problemas de congestionamento e poluição. Neste período foram realizadas mais de 700.000 viagens de trotinete que percorreram quase 1.300.000 quilómetros. Em Lisboa, as trotinetes da Lime conquistaram mais de 53 mil utilizadores nos primeiros dois meses de utilização e, ao fim de quase um ano, já percorreram 2.500.000 quilómetros, nas mais de 1,5 milhões de viagens realizadas. A distância é suficiente para dar quase 1.200 voltas ao país, permitiu evitar a emissão de mais de 4.000 toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera e o consumo de 320 mil litros de gasolina.

Os dados são animadores, mas a mudança é lenta e difícil. No fim de contas, falamos de uma potencial revolução cultural do paradigma que regula a mobilidade há quase 100 anos. As cidades incentivam os cidadãos a usar bicicletas, mas as estradas ainda são dominadas pelos carros. A vulnerabilidade de peões, ciclistas, e outros utilizadores das vias públicas é ameaçada pela presença de carros em massa. Ainda assim, também neste ponto a mudança está em marcha: em Lisboa, os automóveis com matrículas anteriores a 2000 estão proibidos de circular, entre as 7 e as 21 horas dos dias úteis, nos eixos centrais da cidade e o vereador da Mobilidade da Câmara Municipal admitiu, no início do ano, aumentar as restrições de circulação, tendo por base um plano para as energias sustentáveis e o clima, que prevê a interdição de carros a diesel no centro de Lisboa até 2030. Lisboa é uma ótima cidade para implementar soluções inteligentes de mobilidade, visto ser uma das mais internacionais, diversificadas e atrativas na Europa e estar a mudar rapidamente. Para o sucesso desta mudança contribui também a abertura e recetividade das entidades locais que têm testado e apostado em soluções de micromobilidade antes de imporem legislação que põe em causa a avaliação dos resultados. O objetivo final só pode ser um: otimizar o espaço, reduzir o tráfego e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.

Álvaro Salvat é diretor-geral da Lime para Portugal e Espanha

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