João Adelino Faria

A morte

Foto: REUTERS/Marko Djurica
Foto: REUTERS/Marko Djurica

Nunca devemos temer a morte, porque afinal ela é, apenas e só, a maior inevitabilidade de toda a nossa vida.

Tentamos pensar nela o menos possível. Queremos evitar falar sobre ela para não a atrair. Pelo menos em pensamento, todos temos medo e fugimos dela diariamente. E, no entanto, a morte passou a ser um dos ingredientes que mais nos atrai nas notícias e nas redes sociais.

Foi preciso ela chegar de novo perto de mim para a olhar de frente e sem medo. Nunca tinha dado conta, mas a maioria dos noticiários, jornais e redes sociais vive cada vez mais por causa da morte. Não há telejornal, jornal de qualquer espécie e agora até a chamada imprensa cor-de-rosa que dispense a morte como ingrediente de sucesso garantido. E nem sequer estou a falar de notícias de crime, porque essas para mim raramente deveriam ser notícia. Estou a falar simplesmente de morte.

Desde sempre as grandes catástrofes, guerras ou acidentes são medidos em termos de importância noticiosa de acordo com o número de mortes e da geografia. O critério pode até parecer frio, mas é assim que funciona. Quanto mais mortos e mais perto de nós acontecem, maior será a relevância e o impacto da notícia.

A importância dos migrantes nos noticiários começou a ser maior quando muitos deles começaram a morrer tragicamente no mar, e bem à porta das nossas casas. O surto do vírus zika só agora abre noticiários porque se receia que possa matar ou debilitar uma geração inteira que está a nascer. E ainda por cima pode voar num simples mosquito, diretamente para dentro da nossa casa.

Nas notícias nacionais também a morte é ingrediente fundamental. As vítimas mortais nas estradas só são importantes quando são em grande quantidade e concentradas no tempo. O Serviço Nacional de Saúde é cada vez mais escrutinado pelo número de pessoas que morrem por falta de assistência médica. O Orçamento (que agora vai ser discutido) também vai ser avaliado, e muito, pelo dinheiro disponibilizado para que os portugueses possam viver melhor e morrer cada vez menos. Os aviões ficam parados nos aeroportos (desta vez foi um da TAP) porque há ameaças de bomba. E poderia continuar quase sem parar só com exemplos desta semana. Não damos por isso, mas ela está sempre no meio de nós e somos atraídos por ela sempre que aparece numa notícia.

E como se tudo isto já não bastasse, agora passou a ser moda ver atores e figuras públicas (seja lá o que isso for) a revelarem nas redes sociais, ao detalhe, a forma como estão a combater a morte. Revelações que os jornais estão a aproveitar despudoradamente para ganhar leitores e audiências. Infelizmente com sucesso.

Acho que nunca utilizei a palavra morte tantas vezes seguidas. Ou se calhar utilizo sem dar por isso, quando leio o Telejornal todos os dias e onde ela está seguramente presente vezes sem conta. Talvez só agora tudo isto tenha ficado mais evidente para mim porque morreu uma das pessoas que me ensinou a olhar de forma mais simples para a morte. Esta semana morreu o meu pai. Foi com ele que aprendi que nunca devemos temer a morte, porque afinal ela é, apenas e só, a maior inevitabilidade de toda a nossa vida.

Pivô e jornalista da RTP

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