A noite mais cinzenta dos Óscares

A 93ª edição dos Óscares fez história ao consagrar a primeira mulher asiática como Melhor Realizadora, Chloé Zhao por "Nomadland", numa cerimónia que bateu o recorde de mulheres nomeadas: 76. Houve imensos motivos para festejar, desde a diversidade dos vencedores à aparência de normalidade de uma produção onde ninguém estava de máscara.

Mas o número de pessoas que assistiram à festa do ano em Hollywood foi incrivelmente baixo, tão baixo que estabeleceu um mínimo impensável até há pouco tempo. Apenas 9,85 milhões de espectadores sintonizaram a ABC no Domingo para assistirem à cerimónia que decorreu entre a Union Station e o Dolby Theatre, em Los Angeles. Foi um tombo de 58,3% em relação às audiências de 2020, que já tinham sido as mais baixas de sempre.

Esta performance terrível não foi propriamente surpresa, porque tem sido a norma em todas as cerimónias de entrega de prémios este ano. Os Globos de Ouro na NBC caíram 62%, os SAG Awards caíram 52%, a audiência dos Grammys na CBS encolheu 51% e os Critics" Choice Awards perderam 69%. O desempenho dos Óscares esteve em linha com estes desastres, mas ainda assim lançou-nos para território desconhecido.

De forma a visualizar a dimensão do problema com que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas se depara neste momento, convém olhar para os números dos últimos anos:

2014 - 43,7 milhões

2015 - 36,6 milhões

2016 - 34,42 milhões

2017 - 32,9 milhões

2018 - 26,5 milhões

2019 - 29,6 milhões

2020 - 23,6 milhões

2021 - 9,85 milhões

A queda é tão abismal que nenhuma explicação solitária pode ser suficiente. É mais que uma tempestade perfeita. Estamos perante um furacão descontrolado que está a vaporizar tudo no seu caminho, levantando uma questão pertinente sobre o futuro do entretenimento: chegámos ao fim de uma era?

Os Óscares atingiram um força tão grande no cinema que boa parte da máquina de Hollywood foi oleada com as estatuetas em mente. O quem é quem da indústria, a passadeira vermelha, as produções megalómanas no Dolby Theatre, os efeitos de choque pós-cerimónia, as gaffes, os vestidos, os penteados, os mexericos, as after parties - tudo se tornou quase tão importante quanto os nomes inscritos nos envelopes abertos em directo na noite de todos os sonhos.

Mas o espectáculo só continua se tiver audiência. O sucesso precisa de testemunhas e o glamour paga-se com acordos publicitários de milhões. Se a audiência dispersar, os spots de publicidade nos intervalos da transmissão deixam de ser tão valiosos. A ideia de que toda a gente vai aparecer só por serem os Óscares deixou de ser verdadeira, e a indústria tem um ano para perceber o que pode fazer para mudar isso.

Do ponto de vista de quem cobre o evento, a cerimónia deste ano foi uma salada agridoce de momentos históricos numa transmissão pouco memorável. O próprio alinhamento de filmes nomeados não era o mais incrível, como seria de esperar após um ano de pandemia e restrições por todo o lado. Mas ficou a sensação de que alguns destes vencedores mereciam melhor - e uma audiência mais robusta.

Nos bastidores, que costumam ser in loco ao lado do Dolby Theatre, as entrevistas foram rápidas e pejadas de problemas técnicos, um constrangimento previsível quando se atiram centenas de jornalistas numa sala de Zoom a tentar fazer perguntas. No final, Chloé Zhao e o seu "Nomadland" tiveram a vitória esperada, mas não a apoteose merecida.

O facto de esta ter sido a primeira cerimónia dos Óscares que ficou abaixo dos 10 milhões de telespectadores poderá ser importante na história dos prémios mais cobiçados da indústria ou resumir-se a um asterisco. A verdade é que ninguém sabe ainda explicar o que está a acontecer. As pessoas deixaram de se interessar por transmissões ao vivo, sabendo que poderão ver quando quiserem? O streaming tirou o brilho aos prémios grandes do cinema? Os filmes não entusiasmaram num ano difícil para os estúdios? O entusiasmo regressará assim que voltarmos às salas de cinema com valentes baldes de pipocas?

Há muito que se dizia que os Óscares tinham de evoluir e abraçar a mudança. Mas não era nada disto que qualquer crítico tinha em mente.

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