João Adelino Faria

A nova geração

As empresas de comunicação social geridas como puros negócios ameaçam a essência do jornalismo

Foi com eles que aprendi e que aprendemos quase todos. Foi com eles que este país conseguiu ser democrático, reivindicativo, informado e lutar pela liberdade. Agora que quase todos eles já partiram para outra vida, ou para outras vidas, chegou o tempo de uma nova geração honrar a herança daqueles que conquistaram a liberdade de imprensa.

Fechou-se por completo o ciclo. Com as mudanças anunciadas em vários grupos editoriais, Portugal tem a partir de agora toda uma nova geração a dirigir os principais órgãos de comunicação social. Com a renovação das direções, cabe agora a estes novos diretores, que já cresceram num país em liberdade, dirigir a informação nos jornais, televisões e rádios portugueses. As responsabilidades e as dificuldades desta nova geração são imensas, muito diferentes do tempo da ditadura, mas quase tão duras como as lutas daqueles com quem aprendemos a ser jornalistas. Tal como então, também agora temos de enfrentar uma luta por algo que temos hoje como falsamente adquirido. Informar, escrever e falar com plena liberdade.

Temos a partir de agora quase só diretores de uma nova geração que aprendeu com os nomes grandes da época de ouro do jornalismo. Nas televisões, Paulo Dentinho na RTP, Sérgio Figueiredo na TVI e Ricardo Costa na SIC. Nos jornais, André Macedo no DN, Bárbara Reis no Público, Pedro Santos Guerreiro no Expresso e Ana Sá Lopes no jornal i. Nas rádios, David Dinis na TSF, João Paulo Baltazar na Antena 1 e Raquel Abecasis na Renascença. Para mencionar apenas alguns.

Somos todos, porque pertenço com orgulho a este lote, jornalistas de uma geração que aprendeu com os melhores o valor da palavra, da informação, da luta contra a censura, na obrigação de dizer sempre a verdade.

É um privilégio quando um país tem de uma só vez um lote de jornalistas como este à frente de um dos pilares vitais da democracia, mas nunca a responsabilidade deles foi tão pesada.
Hoje é aparentemente mais fácil fazer jornalismo porque temos meios mais rápidos e eficazes de conseguir a informação. Nada mais errado. A pressa, provocada pela maior concorrência, aumenta o risco de errar e as empresas de comunicação social geridas como puros negócios ameaçam a essência do jornalismo. Os poderes ocultos e as influências secretas estão cada vez mais presentes na sociedade portuguesa e tornaram-se a nova e mais perigosa censura.

Exemplos revelados nos últimos anos demonstram bem que esta não é mais uma fantasiosa teoria da conspiração contra a liberdade de imprensa. É uma realidade!

Cabe pois a esta nova geração não deixar que isso aconteça. Porque os conheço quase todos, sei que têm a capacidade, o conhecimento, a inteligência e espero que a coragem para resistir. Não foi por acaso que chegaram todos às posições onde hoje estão. Por isso não será exagerado dizer que é nas mãos deles que pode estar muito do futuro de Portugal.

PS – Com esta crónica termino quase 5 anos de escrita semanal no Dinheiro Vivo. Escrevo nestas páginas desde o número zero. Agradeço a toda a equipa, em especial ao André Macedo por acreditar que eu tinha algo a dizer, e sobretudo a todos os que tiveram a gentileza de me ler e comentar. Foi um verdadeiro privilégio e um grande prazer escrever no Diário de Notícias.

Pivô e jornalista da RTP

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