A nova tibornada de bacalhau

Nunca antes na história do Brasil, um operário estivera tão perto de assumir a presidência como em 2002: o desgaste dos oito anos de governo de centro-direita de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e a sensação de que depois de três segundos lugares nas três eleições anteriores estava na hora de premiar-lhe a persistência, tornavam Lula da Silva favorito nas sondagens. No entanto, o inspirador líder do PT era visto com receio pelos donos do PIB brasileiro.

O guru económico da primeira metade do lulismo, Antonio Palocci, que servia de ponte entre os vícios sindicalistas do PT e os tiques da nata empresarial da Avenida Paulista, decidiu então escrever uma "Carta ao Povo Brasileiro" - que não era mais do que uma carta de amor à elite financeira, adepta quase na totalidade de FHC e do seu sucessor eleitoral em 2002, José Serra.

Ex-prefeito da cidade de Ribeirão Preto, 400 quilómetros a norte de São Paulo, e vizinho do imigrante português Leone Rufino, Palocci escolheu a sua cidade e o restaurante do amigo, a Adega Leone, para redigir a tal piscadela de olho aos donos do PIB.

Segundo conta na sua biografia, numa segunda-feira de maio de 2002, pediu para Leone fechar a casa ao público, plantou dois seguranças à porta, solicitou que o telefone fosse retirado do gancho e fez entrar Lula e a sua seleta entourage para comer uma tibornada de Bacalhau com Batatas a Murro e um Cabrito à Fornos de Algodres, especialidades da casa.

À volta do bacalhau e do cabrito (e das 12 garrafas de Cartuxa tinto), Lula aprovou um texto que metia o socialismo na gaveta e piscava o olho ao patronato. Meses depois - com os cofres cheios de contribuições das grandes empresas e as urnas repletas de votos do povão -, o ex-sindicalista subiu o Planalto. À quarta foi de vez.

O que aconteceu entre aquele 2002 e 2022 já deu quilómetros de páginas, resumíveis aqui numa ou duas frases: Lula governou ao centro, e bem, conseguindo em paralelo tirar o país do Mapa da Fome da ONU e enriquecer os milionários ainda mais, elegeu a sucessora, mais tarde derrubada, viu-se enredado e preso numa teia chamada Operação Lava-Jato, mas voltou, livre, solto e remoçado a um país, entretanto, tomado por uma onda conservadora nos costumes vinda não se sabe de onde.

Vinte anos depois, Lula já não mete (tanto) medo aos empresários - hoje assusta os cristãos. Por isso, vai escrever uma nova "Carta ao Povo Brasileiro" - que mais não será do que uma carta de amor à comunidade evangélica do Brasil.

Jair Bolsonaro capturou esse eleitorado - já em torno de um terço dos brasileiros - às custas de um discurso conservador, às vezes reacionário, do apoio de líderes, os pouco recomendáveis bispo Silas Malafaia e bispo Edir Macedo, e de fake news, como a revelação de que Lula fecharia templos.

Com Geraldo Alckmin, ligado à católica Opus Dei, como candidato a vice, de um lado, e Marina Silva, além de ambientalista, uma fervorosa evangélica, do outro, Lula está pronto para nova carta.

Não será escrita na Adega Leone, que fechou na crise, nem com intermediação Palocci, que delatou o chefe na Lava-Jato, mas vem aí uma nova tibornada para levar o ex-sindicalista, de novo, ao Planalto.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de