Opinião: Ricardo Reis

A oposição político-económica

MIGUEL A. LOPES/LUSA
MIGUEL A. LOPES/LUSA

Nas análises políticas, há hoje um consenso de que a economia vai progredir a um ritmo lento, mas estável.

Muitos comentadores políticos pensam que a queda de Passos Coelho se deveu a um erro de previsão económica. Ele e a sua equipa previram que a fraqueza de um governo minoritário apoiado na extrema-esquerda radical iria assustar os credores internacionais e espoletar uma crise da dívida. Só que o PSD, por um lado menosprezou o quanto a ligeira recuperação da economia seria acolhida pela população como um sucesso e, por outro, subestimou quanto a política expansionária do BCE daria confiança aos credores. Depois de meses a avisar que o diabo vinha aí, Passos Coelho caiu. Talvez este diagnóstico seja correto, talvez não. Mas, olhando para a oposição do PSD agora liderada por Rui Rio, não é claro que tenha aprendido a lição. O erro, mais do que a previsão em si, foi não ser humilde com as previsões económicas e não manter a mente aberta a diferentes cenários e desenvolvimentos externos.

Nas análises políticas, há hoje um consenso de que a economia vai progredir a um ritmo lento, mas estável, sem grande contestação social e sem crises externas. Por isso, António Costa irá ganhar as próximas eleições e a oposição deve-se concentrar na limitação da perda de votos e na abertura para acordos com um governo popular. Talvez sim, mas há várias razões para manter a mente aberta.

Primeiro, do exterior, nos próximos meses, pode vir uma crise da dívida nos mercados emergentes com contágio para outros países endividados, ou um abrandamento do crescimento com fonte no conflito China-EUA. Não é preciso muito para eliminar o nosso crescimento medíocre, e a nossa dívida gigante exige lidar com qualquer choque através de cortes na despesa pública ou aumento de impostos.

Segundo, a ênfase da política económica portuguesa na reposição e redistribuição de rendimentos na direção dos funcionários públicos tem uma consequência inevitável: vira os trabalhadores do setor privado contra o governo e cria frustração nos grupos que acham estar a ser passados para trás por não protestarem tão alto quanto outros. As inúmeras greves atuais, dos funcionários prisionais aos enfermeiros, são o espelho disto. Não foi assim há tanto tempo que o governo de António Guterres caiu contra a pressão das expectativas de múltiplos grupos profissionais. Terceiro, os portugueses vivem hoje com pouco mais do que tinham há 20 anos. A nossa política fiscal ambiental carrega mais nos custos da energia e dos automóveis do que em França. A extrema-esquerda exige mais para apoiar um novo governo. A tolerância para com o passa-culpas do governo quando rebentam problemas está a expirar. O povo é sereno, mas às vezes farta-se num ápice.

O mais provável, e desejável, é que o crescimento económico não abrande, que dando umas migalhas aqui e umas promessas ali, o governo mantenha todos satisfeitos e que não haja nenhuma revolta social. Provavelmente teremos governo PS durante mais anos. Mas que a oposição trate este cenário como inexorável diminui a qualidade da nossa democracia.

Professor de Economia na London School of Economics

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