A pergunta consciente

Arrancámos 2021 divididos entre otimismo e alguma precaução. Se por um lado a chegada das vacinas e a perspetiva geral de retoma económica nos anima, por outro não podemos deixar de sentir que boa parte da crise ainda não bateu, amortecida por estímulos económicos sem precedentes, que ainda não chegaram aos cofres dos governos e cuja fatura futura não conhecemos verdadeiramente.

Antes de olhar para o que poderá ser 2021, é bom lembrar as aprendizagens deste ano. 2020, para a maioria dos empreendedores, empresários e inovadores, foi seguramente o ano do Antifrágil de Nassim Taleb. Um tempo em que, sob pressão, ficámos mais fortes - a nível individual e como sistema de colaboração. António Damásio reforça no seu Sentir e Saber que os sentimentos são essenciais no processo de consciência e a mente organiza imagens e raciocínio conscientes através dos sentimentos. Fala-nos também da importância da criatividade como processo de desenvolvimento da inteligência mais abrangente. Nesse sentido, é importante ganhar consciência sobre os sentimentos que vivemos e refletirmos sobre como fomos capazes de pôr a criatividade ao serviço do desenvolvimento de novo conhecimento e soluções.

No livro Espiritualidade e Transcendência, Carl Jung fala da importância do inconsciente coletivo como função determinante da compreensão da psique. Para Jung, o inconsciente coletivo contempla a representação de arquétipos partilhados pela humanidade, que de certa forma herdamos ou partilhamos. Esta dimensão do inconsciente coletivo, a par da necessidade intrínseca de espiritualidade e transcendência, determinam um desenvolvimento sustentável da consciência de nós próprios e da nossa identidade. De certa forma inovação e gestão incorporaram uma dimensão cada vez mais espiritual e transcendente. É através delas que o ser humano se propõe materializar nova realidade, conceitos e significados. Que altera e acelera processos de atualização de arquétipos e inconscientes coletivos, contribuindo para a nova consciência e criando tensões entre a nossa realidade interna e a exterior. A capacidade de ouvirmos a nossa própria voz, de escutarmos verdadeiramente o que nos rodeia e estarmos conscientes através dos nossos sentimentos e foco.

Interessante que até Elon Musk, expoente máximo do modelo empreendedor, diz que a raiz do seu processo criativo first principles passa por silêncio, reflexão e compreensão das regras intrínsecas à realidade sobre a qual quer inovar. Mais do que ouvir muitas vozes ouvir o seu raciocínio e sentimentos.

O mais importante que aprendi com a pandemia foi esta necessidade de humanismo, de ouvir a minha verdade e a do que estamos a tentar resolver. Estar mais presentes e criar entendimento através de diálogo de forma mais próxima. Saber focar no essencial e, à semelhança da poesia, retirar o supérfluo, e olhar para o significado do que se pretende atingir com o que fazemos. Perceber que a liderança é a coragem para ser fiel aos nossos valores e imaginar e concretizar a realidade maior em que acreditamos.

Uma das principais mudanças que espero ter acontecido foi este despertar de consciência para a necessidade de soluções mais sustentáveis e com significado. A realização de que é possível trabalhar e aprender de outra forma, em modelos mais híbridos, assentes em colaboração e autonomia. Saber libertar o potencial das pessoas através de uma certa sacralização do tempo que temos em conjunto. A confirmação da importância de desenvolver uma cultura que esteja ao serviço das pessoas. Viver segundo valores que unem equipas em torno de objetivos comuns. Saber promover uma vida com mais balanço e equilíbrio. Introduzir hábitos verdadeiramente regeneradores da nossa essência para que a criatividade e a motivação não esmoreçam. Aceitar que o essencial e a base de tudo são as pessoas e sabermos rodear-nos das mais relevantes e com elas encontrar as melhores soluções de forma honesta e colaborativa.

É incrível a aceleração exponencial do desenvolvimento das vacinas da covid - menos de um ano para desenvolver o que há um século demoraria 50 a 100 vezes mais. Como é incrível a velocidade da troca de informação e conhecimento. Mas para sobreviver a este estado permanente de emergência, é importante não esquecer, como refere Tolentino Mendonça na introdução do magnífico Diário de Etty Hillesum, que "entrar em nós próprios é a viagem mais longa que poderemos realizar". Temos por isso de ser capazes de serenar e estar cada vez mais presentes na nossa realidade sem nos perdermos no ruído, para sermos capazes de criar realidades e soluções com significado. Passar mais tempo à procura da pergunta do que da solução.

Cofundador e CEO da Beta-i

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