Opinião

A praga dos influenciadores

Influenciadores digitais - Instagram

Os adultos que rodeiam adolescentes em busca de fama têm uma responsabilidade acrescida

“Ela está a tentar”, ouvi dizer a meio de um almoço, sobre uma miúda que quer ser influenciadora. “Até agora só teve descontos”, seguiu o relato. “Ainda não recebe nada.” Com pouco mais de 10 mil seguidores, esta jovem mulher encara a sua presença nas redes sociais como um possível emprego.

Receber dinheiro para publicar fotos patrocinadas parece mesmo um trabalho de sonho, rival apenas daqueles empregos mirabolantes que envolvem ir viver para ilhas paradisíacas. É preciso começar de baixo, fazendo parcerias que lhe permitem obter produtos e serviços gratuitos ou mais baratos. Depois, ir subindo a escada da influência até começar a receber dinheiro vivo pelos conteúdos que publica numa rede social onde, de qualquer forma, estaria quer ganhasse ou não por isso.

A bolha dos influenciadores está de tal forma inflaccionada que o risco de rebentar é grande. E esta fixação no caminho alternativo para a fama talvez explique como é que agentes de talentos como Hugo Strada têm conseguido destacar-se num mercado claramente saturado.

Quem tem filhos em idade de loucura por youtubers e instagrammers conhece certamente o escândalo que rebentou com a Team Strada no último mês, depois de um influenciador de 17 anos, conhecido como Dumbástico, ter cumprimentado Hugo Strada na televisão com um beijo na boca. A coisa foi tão natural que se percebe que é recorrente. O momento gerou um levantamento popular de tal ordem que o próprio Ministério Público abriu uma investigação a esse e outros comportamentos suspeitos de Hugo Strada, que vieram a lume com vídeos, alegadas trocas de mensagens impróprias e até gravações de áudio que incluem ameaças a adolescentes.

A justiça seguirá o seu curso e, até lá, ninguém pode dar como provadas acusações graves. Mas é espantoso que os pais dos adolescentes que fazem parte da Team Strada tenham sido os primeiros a sair em defesa do agente e a chamar de “fake news” o que foi denunciado. Segundo eles, não se pode acreditar em tudo o que se vê, o que é notável neste contexto. Se é verdade que um vídeo pode ser manipulado e uma situação ensaiada, tudo isto partiu de algo que aconteceu em directo num programa televisivo. E não há qualquer justificação para um homem de 36 anos beijar na boca um rapaz de 17 com quem supostamente tem uma relação profissional.

Os adultos que rodeiam adolescentes em busca de fama têm uma responsabilidade acrescida. Não deixa de ser interessante que algumas das vozes mais sonoras contra os comportamentos de Hugo Strada tenham sido de adolescentes que lidaram com ele, ou que assistiram a alguns episódios estranhos, e perceberam que tais comportamentos não são aceitáveis.

É esse o tipo de influência de que precisamos agora, não do das fotos ao pôr-do-sol com um fato-de-banho patrocinado. Adolescentes a mostrarem uns aos outros que ser “influencer” não deve ser um fim em si mesmo a atingir a qualquer custo. Adultos a usarem a sua autoridade para expor quem se aproveita das mentes moldáveis, não a desculparem-nos assim que farejam cifrões.

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