ana rita guerra

A privacidade é uma causa perdida

Fotografia: REUTERS/Francois Lenoir
Fotografia: REUTERS/Francois Lenoir

Há uma histeria com a personalização que não é acompanhada de uma preocupação real com a sua privacidade – ou segurança.

Há uns meses, responsáveis de um mega grupo de retalho norte-americano contactaram Charles L. Perkins, um pioneiro de java e especialista em privacidade, para testar um projeto com o qual estavam muito entusiasmados.

A ideia era pôr câmaras no lugar das órbitas dos manequins pela loja fora, de forma a seguirem o olhar dos consumidores e perceberem exatamente que roupas, sapatos, maquilhagem ou outros produtos lhes chamavam a atenção ou eram ignorados.

“Quando se põe uma câmara visível, as pessoas modificam o seu comportamento”, explicou Perkins, à margem de um encontro dedicado a uma tecnologia de bloqueio de cookies onde participei. “Mas se a câmara estivesse escondida, seria possível captar as reações verdadeiras das pessoas.”

Perkins, um radical defensor da privacidade num mundo em que estamos todos expostos, disse logo que não e apontou para a ilegalidade do que eles propunham. “Nem sequer se aperceberam de que não podiam fazer isso. Não se pode filmar pessoas sem o seu conhecimento.”

O que os marketeers deste grupo de department stores queriam fazer era a análise in loco de comportamentos que de outra forma só podem ser inferidos, e que são impossíveis de detetar online. As ferramentas de analítica permitem sonhar com um mundo em que só falta entrar nos sonhos dos consumidores para acrescentar essa informação ao seu perfil.

Há uma histeria com a personalização que não é acompanhada de uma preocupação real com a sua privacidade – ou segurança.

Por exemplo, num estudo que a organização sem fins lucrativos Open Effect divulgou em fevereiro, dos oito principais gadgets usados para registo da atividade física só um protegia os utilizadores de serem seguidos via Bluetooth – o Apple Watch. Os outros sete, Fitbit Charge HR, Garmin Vivosmart, Jawbone UP 2, Mio Fuse, Withings Pulse O2, Xiaomi Mi Band e Intel Basis Peak tiveram um desempenho muito mau na proteção da privacidade dos consumidores, permitindo a interceção dos dados transmitidos para a Internet e a monitorização do identificador Bluetooth.

Agora imaginem a mina que estes wearables são não só para marketeers, mas também para as autoridades que querem aceder a bases de dados com informações dos cidadãos, ou terceiros com intenções duvidosas.

Há centros comerciais com radares que fazem scan dos sinais Bluetooth quando os consumidores andam por lá com os seus wearables, de forma a perceberem os padrões, fazerem ajustes conforme esses mapas e lançar promoções direcionadas.

As intenções são viradas para aquilo que todos os negócios querem: vender mais com menores custos. Todavia, os resultados podem ser desastrosos, em especial porque os cidadãos não são claramente informados quanto ao que é feito com a sua informação, e que garantias são tomadas para a proteger.

No final do ano passado, conheci a diretora de vendas de uma empresa chamada Localz, Nimmity Zappert, que me explicou o conceito da micro-localização. A empresa fornece soluções a parceiros que enviam mensagens para o smartphone dos clientes quando estes se encontram em certos locais. São mensagens “contextualmente relevantes”, que podem por exemplo sugerir o café do dia na esquina do Starbucks.

A base são os “eventos de proximidade” e tenho a certeza que para muita gente isto será uma mais-valia, até porque o serviço é opcional.

Mas quantos consumidores leem tudo quando põem os “certos” nas caixas para poderem concluir um registo? Quantos se aperceberam de que os conteúdos que põem no Facebook podem ser usados pela rede social, como está plasmado nos termos de serviço? Quantos examinam as permissões ao instalar uma aplicação no smartphone? Quantos removem a informação de geolocalização das fotos que tiram com o telemóvel? O problema é que fazer tudo isto muitas vezes impede que se consiga usar o serviço, a app, a funcionalidade. E é por isso que se aceita que a privacidade é uma causa perdida. O que não podemos esquecer-nos é de que, sem a nossa colaboração, estas empresas não têm nada.

Jornalista, vive em Los Angeles e escreve todas as terças-feiras

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