Opinião

A privacidade segundo a Apple

Apple iPhone iOS 13

As novidades introduzidas no iOS 13 para devolver o controlo aos utilizadores são importantes. Serão suficientes?

No grande evento da indústria de consumo de que a Apple está sempre ausente, o CES Las Vegas, a marca achou que 2019 era a altura perfeita para mandar umas farpas em direcção à Google e ao Facebook, pavoneando a sua reputação em torno da segurança e privacidade. Os telhados do iPhone não eram, no entanto, tão robustos quanto a Apple queria fazer parecer. Soube-se agora que, apesar das promessas de que o iPhone é um contentor hermético dos dados pessoais dos utilizadores, aplicações externas conseguem abusar da funcionalidade de actualização no background para monitorizar conteúdos e comportamentos.

Os detalhes partilhados com empresas de monitorização para efeitos de marketing, segundo o Washington Post, incluem número de telefone, endereço de email, endereço IP e localização precisa do utilizador.

É com isto em mente que se deve olhar para as funcionalidades de privacidade que a Apple anunciou ontem no arranque da sua conferência anual de programadores, WWDC, em São José. A mais importante é a “Sign in with Apple”, uma forma de contornar o processo de criação de conta em apps e websites, que normalmente é invasiva e obriga à partilha de dados.

O problema é que utilizar a conta do Google ou a conta do Facebook para criar acesso a uma app resulta na transferência de dados do utilizador para os programadores da app. Facilita o processo, sim, mas não protege a privacidade.

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O que a Apple propõe com a nova funcionalidade, que virá com o iOS 13, é uma criação alternativa de credenciais que impede a app de recolher dados pessoais do utilizador. Gera um endereço de email aleatório que fica na base de dados do programador mas não é o endereço verdadeiro – e isso significa que o utilizador recupera algum controlo e pode cortar a ligação à app sem obstáculos.

Outras ferramentas importantes, que são transversais à plataforma, irão impedir que as apps monitorizem a localização do utilizador e enviarão chamadas indesejadas directamente para o correio de voz.

Ainda neste capítulo: a plataforma para automação em casa HomeKit vai levar mais a sério a segurança dos utilizadores. No caso de câmaras de videovigilância inteligentes, o processamento do vídeo passará a ser feito localmente, resolvendo o problema do envio para a nuvem sem encriptação. E passa a ser possível ao router doméstico erguer um muro virtual à volta dos aparelhos inteligentes dentro de casa em caso de ataque.

É interessante que tudo isto tenha sido anunciado no dia em que o Comité Judiciário da Câmara dos Representantes lançou uma gigantesca investigação das práticas da Google, Facebook, Amazon e da própria Apple, entre outras, um escrutínio doméstico sem precedentes às grandes de Silicon Valley. Esta ofensiva correrá em paralelo com processos lançados pelo Departamento de Justiça e pela Federal Trade Commission no rescaldo dos sucessivos escândalos envolvendo o sector tecnológico, incluindo graves falhas na protecção da privacidade dos consumidores, práticas anti-concorrenciais e o papel na desinformação que grassa online.

Alguma coisa tem de ser feita para pôr fim a esta praga inescapável. Não há desculpas para esta dificuldade em manter um mínimo de privacidade e segurança quando se paga centenas de euros por um smartphone ou tablet. Principalmente quando a reacção das empresas perante uma brecha de segurança e abuso de dados é um email, uma publicação, um discurso contrito que se dissolve quando o ciclo noticioso passa.

É verdade que a Apple tem sido pró-activa na protecção da privacidade dos seus utilizadores e advoga mais mecanismos de controlo, mas a aparência de empresa impoluta também não corresponde à verdade. Além disso, sendo um facto que estas mudanças no iOS 13 constituem um passo importante, também contribuem para olhar de frente a realidade de que o modelo das app stores está gasto. Uma vez percebendo que a moeda de troca por apps gratuitas não pode ser a invasão da privacidade dos utilizadores para fins publicitários, tem de aparecer uma alternativa. E isso seria um excelente tema para discutir numa conferência mundial de programadores.

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