A profecia de Rangel

Cumpriu-se a profecia. Afinal a televisão pode mesmo vender um Presidente.

Um foi convidado para fazer um programa de análise política e conquistou o país. O outro entrou no Big Brother e transformou-se numa estrela popular. Sem a televisão, talvez nem um hoje fosse Presidente da República nem o outro tivesse deixado de ser um anónimo calceteiro.

Cumpriu-se a profecia. Afinal a televisão pode mesmo vender um Presidente. Penso que nem o próprio Emídio Rangel (autor da profética frase) tinha a real dimensão do fenómeno que estava a criar quando convidou Marcelo Rebelo de Sousa para fazer um programa na TSF, há 26 anos. Visionário como era, Rangel viu no professor o comunicador nato que podia revolucionar a análise política. Com ele acabou a linguagem hermética e rebuscada, e o comentário tornou-se mais directo e entendido por todos. De forma inteligente, Marcelo foi ensinando os portugueses, durante décadas, ao mesmo tempo que aprendia todas as técnicas de comunicação com os jornalistas que teve como interlocutores. Trabalhou com os melhores profissionais de várias gerações de rádio e televisão, e soube sempre aproveitar e utilizar o que cada um tinha de melhor. Apesar das várias mudanças de canais televisivos, o professor tornou-se numa estrela única da comunicação nacional. Mesmo os que mais o criticavam e desprezavam nunca o deixaram de seguir com atenção. Da direita à extrema esquerda ninguém podia correr o risco de não saber o que dizia Marcelo.

Devagar. Não teve pressa de chegar ao maior cargo da nação, porque o verdadeiro poder já o tinha conquistado, semana após semana, através do ecrã. Quando finalmente chegou o tempo certo, avançou e ganhou sem esforço. A televisão já tinha feito o resto.

Nada disto lhe tira o mérito político e académico ou a grande inteligência que possui. No entanto, agora mudaram as regras. A partir de hoje vai ser ele o escrutinado em todas as análises e comentários.

Até agora quase ninguém sabia quem era Vitorino Silva, mas todos conheciam o Tino de Rans. Graças também à televisão, o calceteiro de sorriso aberto e abraço afável rapidamente se transformou num talento de reality shows. O homem do povo que todos gostam passou a figura nacional, depois de viver na casa mais famosa do país. A exposição diária nos ecrãs televisivos ajudou-o a construir a personagem, que mesmo os que não viam o programa passaram a conhecer. Com a fama conquistada na TVI, colocou a sua aldeia no mapa mediático e quando chegou a altura também ele avançou para a corrida ao mais alto cargo da nação. Foi alvo de troça e até desprezo. No final das eleições, quem riu melhor foi ele. Conseguiu 152mil votos e levou o amargo de boca a muitas altas figuras partidárias. Tinha sabido finalmente usar em benefício próprio a mesma televisão que antes tanto o tinha utilizado.

Dois percursos diferentes e opostos mas unidos pela inteligência de aproveitar bem o verdadeiro poder da comunicação. Agora, que ambos conquistaram os lugares que ambicionavam, é bom que não se esqueçam. Da mesma forma que a televisão cria fama e prestígio, também os pode destruir.

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