A propósito da portofobia

Alguém tem de levantar a voz contra um centralismo preconceituoso e estereotipado.

Em setembro de 1995 fui morar para Lisboa. Em 1999 fui para Madrid e em 2002 voltei para Lisboa, onde fiquei até 2011. Ao todo foram 14 os anos em que morei naquela cidade maravilhosa. Em Lisboa tornei-me adulto. Em Lisboa perdi a timidez. Em Lisboa comecei a minha vida profissional. Em Lisboa comprei casa. Em Lisboa casei. Em Lisboa fiz um filho e uma filha. Em Lisboa fiz amigos para a eternidade. Em Lisboa descobri uma cidade que se descobre todos os dias, sem fim. Em Lisboa encontrei uma arquitetura lindíssima e diversa. Em Lisboa conheci a luz mais bonita do mundo. Em Lisboa aprendi a gostar de Sagres com caracóis. Em Lisboa participei em tertúlias até ao nascer do sol. Em Lisboa fui a mil e uma festas. Em Lisboa passei dos melhores anos da minha vida. Em Lisboa senti portofobia.

No outro dia, o presidente Rui Moreira inventou esta palavra que tão bem descreve o sentimento que senti centenas de vezes quando morei em Lisboa. A portofobia vem em forma de pergunta, seguida de afirmação: “Você é do norte? Vê-se logo pelo seu sotaque.” “Você é do norte?” quer dizer “você vem lá da terra do Pinto da Costa e do Valentim Loureiro, dos empresários do têxtil com a quarta classe”. Não quero pôr as culpas ao Herman, porque o problema vai muito mais além dos sketches hilariantes do “Esteves” e o “Engenheiro do Norte”, mas a verdade é que muito contribuíram para esta estigmatização, juntamente com décadas de jornalismo divisivo, tendencioso e de baixa categoria, da TVI, do Sol, do Correio da Manhã, etc. Imaginem um sketch em que todos os lisboetas são pedófilos, só porque o escândalo da Casa Pia aconteceu em Lisboa... Imaginem um sketch onde todos os lisboetas são traficantes de droga porque foram encontrados 9 kg de cocaína no Estádio da Luz... Se há sketches a ridicularizar lisboetas e jornais a denegrir Lisboa, não me lembro de os ter visto.

Apesar de ter passado mais de metade da minha vida fora do Porto, identifico-me a 100% com o espírito portuense, mas não com o bairrismo fanático. O bairrismo faz-nos pequenos e tacanhos. Não somos mais ou menos honestos, nem mais ou menos inteligentes. Não somos melhores nem piores, somos diferentes. Temos coisas muito melhores do que Lisboa e outras muito piores. O clima é um deles. No Porto estão sempre menos não sei quantos graus do que em Lisboa e chove a toda a hora. Por outro lado, nós, as gentes do Porto, temos pelo na venta e não nos deixamos ficar, tal como Rui Moreira acaba de demonstrar tão bem.

Alguém tem de levantar a voz contra um centralismo preconceituoso e estereotipado. Já não há lugar (nunca devia ter havido) para a objetificação da mulher, a estereotipação da família (homem, mulher, filhos), o preconceito racial. Porque é que, em 2020, ainda é normal haver preconceitos regionais turbinados por certas e determinadas instituições?

North American Executive Creative Director na VMLY&R NY

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