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A próxima fronteira da BlackBerry: carros autónomos

Carros autónomos podem evitar acidentes, mas como decidirão se tiverem de escolher entre matar uma vida ou outra? Fotografia: EPA
Carros autónomos podem evitar acidentes, mas como decidirão se tiverem de escolher entre matar uma vida ou outra? Fotografia: EPA

Os carros autónomos são uma boa forma de começar, embora não seja provável que a marca atinja uma posição relevante.

O carismático primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, olhava embevecido para o CEO da BlackBerry enquanto este anunciava um mega investimento em Ottawa. John Chen abriu ontem um centro de investigação de 100 milhões de dólares na capital do país, mas não para congeminar um regresso dos smartphones BlackBerry. A antiga glória do Canadá vai apostar nos carros autónomos. Se era preciso algum sinal extra de que este será o sector tecnológico mais concorrido dos próximos anos, ficámos esclarecidos. Em vez de arrumar as chuteiras, a BlackBerry vai arregaçar as mangas e produzir tecnologias para os carros inteligentes do futuro.

Trudeau, com o seu penteado impecável e gravata Burgundy, puxou dos galões para falar do investimento. “Este centro é mais que um hub de pesquisa e inovação para o sector automóvel. De facto, é um testemunho da enraizada cultura de inovação aqui na capital do nosso país.” É quase mensurável o peso em cima da BlackBerry para que recupere o seu lugar como uma das maiores empresas tecnológicas do mundo. Os carros autónomos são uma boa forma de começar, embora não seja provável que a marca atinja uma posição relevante.

Eis porquê: a BlackBerry não tem o capital necessário para investir pesado em inteligência artificial e machine learning – cruciais nesta área – ao contrário dos maiores nomes em Silicon Valley, como a Google e a Tesla. Mais, em 2017 haverá uma intensa corrida ao mercado, com uma explosão de pequenas empresas a tentarem ser o “Uber” dos carros autónomos. [Isto tem duplo sentido. A Uber também quer ser a Uber dos carros autónomos e é por isso que está a injectar milhões em pesquisa e testes.]

Nos últimos meses, foram lançados vários relatórios de consultoras com previsões para o mercado. A CB Insights contabiliza 33 empresas a trabalharem em protótipos, da Audi e Honda à chinesa Yutong e à Volkswagen. Num dos mais recentes estudos, a Juniper Research indica que o sector dos táxis (incluindo os de tipo Uber) será o principal impulsionador dos carros autónomos, com uma base instalada global de 22 milhões de veículos em 2025.

Outro indicador interessante é o número de startups e empresas estabelecidas que vão mostrar tecnologias “revolucionárias” no CES de Las Vegas, já em janeiro. Uma delas é a Almotive, com demos de um sistema alimentado a inteligência artificial que usa câmaras como sensores primários. Outra é a REVA2, uma empresa francesa que desenvolveu uma fita com chips RFID que se cola à estrada para transmitir com precisão a localização dos veículos. Os suíços da Rinspeed vão mostrar o seu carro conceptual Oasis, a Ford e a Nvidia abordarão o tema nas suas keynotes. Quem diria que o maior evento da indústria dedicado à electrónica de consumo estaria cheio de carros em 2017?

É neste contexto que a BlackBerry vai lançar os dados. A ideia é usar o capital da divisão QNX, que tem larga experiência no desenho de sistemas de bordo para carros “normais”, e encontrar um nicho seguro com a ajuda de alguns parceiros de relevo – como a Universidade de Waterloo e a Ford. John Chen teve a sobriedade de dizer que o centro expandirá para lá do sector automotivo, posicionando-se “na intersecção da segurança com a mobilidade.” Segurança é talvez o melhor activo da BlackBerry, e faz sentido focar nesse aspecto. Porque não haverá mercado de carros autónomos sem garantias de inviolabilidade. Isso, ou estaremos todos lixados.

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