A realidade paralela onde vivem os pais

A educação já não é o que era. Antigamente ninguém fumava ou bebia, obedecíamos aos pais, estudávamos quando chegávamos a casa e existiam poucas crianças e jovens com más notas. E as poucas que existiam com más notas, compensavam a falta de sucesso escolar com humildade seguindo a máxima, hoje em desuso mas muito citada pelos pais de todo o mundo, "se não estudas vais trabalhar para as obras como no meu tempo". Se soubessem as pessoas que trabalham nas obras devido à falta de sucesso escolar, estudavam mais, é o que ainda digo aos meus filhos. Era costume as pessoas não se deitarem nos sofás - sentavam-se de costas direitas, em ângulos próximos dos 90 graus como as suas avós e bisavós; também não mordiscavam as almofadas enquanto assistiam a séries ou telenovelas e levantavam-se cedo. Assistiam a programas culturais e sabiam o que se passava no mundo: a clássica crise do Médio Oriente, o saudoso Muro Berlim, o IRA, a ETA e a fome em África que tantas consciências abalaram. Aos 10 anos toda a gente tinha lados, hoje têm Instagram.

Os nossos filhos não acreditam, mas ao contrário deles, nós éramos bem educados. Por exemplo, não nos atrevíamos a responder mal aos nossos pais. Também não éramos inúteis, nem vaidosos, nem acanhados ou pouco desenrascados - se nos abandonassem no meio da Floresta Negra ou no centro de Xangai apenas com uma caixa de fósforos, sobreviveríamos durante um mês. Eles nem sabem onde é a Floresta Negra. E éramos puros, castos, ingénuos e sãos até tarde demais. Acreditávamos num mundo melhor que pula e avança e que não fica limitado a um ecrã digital movido por um polegar que serve para adormecer cérebros. Também fazíamos desporto, lembram-se? Lembram-se de se levantarem às seis da manhã para uma corrida matinal antes das aulas para despertar o cérebro à matemática? Eu lembro-me. Era serra a cima, serra abaixo pelo menos três vezes por semana. E não, não era como hoje, que se fustiga o corpo e a saúde em nome da beleza; dantes fustigámos o corpo e a saúde em nome da inteligência, do saber, da busca pela verdade. Nem espelhos em casa tínhamos: não queríamos saber da futilidade da beleza física mas sim da beleza interior, não ficávamos horas no quarto a despejar um armário inteiro antes de sair à noite só para beber café com amigas. Nem tínhamos roupa a mais porque gastávamos o dinheiro todo em livros. Roupa de marca, ténis de marca, cabeleireiro, unhas, acessórios, etc. são sinais dos tempos fúteis, digitais, vazios em que vivemos. Nós não éramos assim. Qualquer trapinho nos servia.

Hoje, e escrevo isto enquanto abano a cabeça, desconfio que batemos no fundo. Os miúdos não leem. Nós pais, lemos livros uns atrás dos outros e mal chegamos a casa atiramos o telemóvel para um canto e corremos para últimas review do The New York Times. Lembram-se de não saírem à noite porque tinham um livro para acabar? Quantas vezes. E de não irem jantar com os amigos porque estavam a juntar dinheiro para os vossos primeiros Camus? Foi a minha excentricidade aos 16 anos que me custaram algumas amizades.

Já lhes disse: por este andar vão parar todos às obras, como no meu tempo. O pior é que não compensa: entre a gasolina para lá e para cá, portagens, mais as refeições, mais vale ficarem por casa e continuarem mal educados.

Esta crónica está escrita ao abrigo da figura de escrita ironia//Jurista

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