Opinião

A realidade ultrapassou a ficção

Claire Danes em "Segurança Nacional" (Temporada sete/Showtime)
Claire Danes em "Segurança Nacional" (Temporada sete/Showtime)

Teorias que antes estavam no domínio de gente como Alex Jones, a quem só falta usar um casaco forrado a alumínio, passaram para o mainstream

Há livros, séries e filmes com a capacidade impressionante de tocar no futuro, destapando tendências antes de nos darmos conta delas, prevendo desenvolvimentos que só mais tarde parecem plausíveis. “Wisdom of the Crowd”, uma série da CBS que foi cancelada no mês passado devido a alegações de assédio sexual contra o protagonista Jeremy Pivens, é uma delas. A premissa é a utilização de crowdsourcing e algoritmos avançados para espremer a sabedoria das multidões na resolução de crimes.

Na série, os responsáveis pela plataforma acabam a trabalhar oficialmente com a polícia e participam nas investigações, algo que seria muito problemático na vida real. Mas os efeitos colaterais de uma ferramenta tão poderosa estão bem imaginados. As implicações destas tecnologias que usamos todos os dias, a forma como mudam o nosso quotidiano, raramente são questionadas em tempo real; “Wisdom of the Crowd” tem, apesar de tudo, uma perspectiva optimista sobre o potencial da multidão e o altruísmo dos utilizadores. É uma dicotomia em que oscilamos frequentemente: as execuções virtuais sumárias, o veneno lançado em caixas de comentários, o bullying e as perseguições, as fake news e as câmaras de eco fazem-nos perder a fé na Humanidade. Os movimentos de avanço social, os #MeToo e #TimesUp, as ondas de solidariedade, os esforços de recolha de dinheiro para ajudar pessoas desfavorecidas permitem-nos recuperar essa fé.

Há alguns anos, a série “House of Cards” levou tudo a eito na televisão por ser ambiciosa e presciente. Retratando os jogos sujos de bastidores que todos sabemos passarem-se em Washington, D.C., imaginou a ascensão de um presidente corrupto, manipulador, à beira da psicopatia. Não vamos falar da ironia de Kevin Spacey ter sido afastado da série devido às acusações de abuso sexual de pelo menos oito homens e ser substituído na última temporada por Robin Wright, que na trama interpreta a primeira-dama. O drama para séries como esta é que a realidade política e social que se vive neste momento ultrapassa tudo o que conseguem mostrar no ecrã. As vilanias que Michael Wolff descreveu no livro “Fogo e Fúria” dão mais pano para mangas que qualquer esboço de ideias na sala de escritores do Netflix. As patifarias que estão a passar-se em Washington põem até a fabulosa série “Segurança Nacional”, do canal Showtime, numa situação melindrosa.

É verdade que a coisa lhes correu mal na sexta temporada, quando puseram uma mulher a ganhar as eleições presidenciais e estamparam de frente com a vitória de Donald Trump. O remédio que encontraram para este desencontro entre realidade e ficção foi atribuir a Elizabeth Keane (interpretada por Elizabeth Marvel) as características autoritárias que Trump demonstra desde o início do seu mandato. A sétima temporada, que estreia esta sexta-feira em Portugal na Fox, vai tentar capitalizar no ambiente tumultuoso que se vive e apresentar uma presidente paranóica e com tendências fascistas.

Uma das coisas mais interessantes do primeiro episódio da nova temporada, sem ser necessário estragar a surpresa a ninguém, é o personagem Brett O’Keefe, interpretado por Jake Weber. Trata-se do apresentador de televisão que tem um programa controverso no qual faz rodar teorias da conspiração. O’Keefe é uma sombra pálida quando comparado com as cabeças falantes que existem na realidade, em especial o infame Alex Jones, no qual o personagem foi baseado. Talvez seja possível entender porquê: o nível de loucura é tão elevado que contado ninguém acredita. Posto em televisão não é plausível. Alex Jones e vários outros do seu calibre são caricaturas de si próprios, aberrações que são demasiado inverosímeis para caberem num trabalho de ficção.

Não parecia possível que figuras controversas da direita se tornassem mais erráticas após a saída de Barack Obama da Casa Branca, tal era o ódio que nutriam pelo ex-presidente, mas a verdade é que isso aconteceu. Sean Hannity está numa espiral descendente e até culpou Obama pela volatilidade em Wall Street na semana passada. A Fox News, este fim de semana, culpou Obama por Trump ter nomeado Rob Porter como press secretary, mesmo sabendo que ele tinha antecedentes de violência doméstica. Teorias que antes estavam no domínio de gente como Alex Jones, a quem só falta usar um casaco forrado a alumínio como Chuck McGill em “Better Call Saul”, passaram para o mainstream. É por isso que “Segurança Nacional” e “House of Cards” perderam o apelo que tinham. Já não conseguem sequer manter-se em tempo real. A realidade ultrapassou a ficção, a política tornou-se entretenimento, e os ratings dos canais noticiosos dispararam. De uma forma ou de outra, somos todos parte do problema.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Ministro das Finanças, Mário Centeno. Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante

Finanças cortam 11% na verba para descongelar carreiras em 2019

O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte REUTERS/Alessandro Bianchi

Itália não cede a Bruxelas e mantém orçamento

Fotografia: JOSÉ COELHO/LUSA

Vieira da Silva admite que 600 euros são “ponto de partida”

Outros conteúdos GMG
A realidade ultrapassou a ficção