Opinião

A saudade de Portugal na Califórnia

O Festival Português aconteceu a 13 de abril em Turlock/Ana Rita Guerra
O Festival Português aconteceu a 13 de abril em Turlock/Ana Rita Guerra

“Tem sodas?”, perguntou a mulher, a abanar-se debaixo do calor intenso que gracejou a pequena cidade de Turlock no vale central da Califórnia. A empregada da tenda de comida, que andou num virote a manhã toda a entregar filhós e latas de bebidas gaseificadas, respondeu que “sim” e perguntou qual delas queriam. Com o cliente seguinte, falou em inglês. E com o que apareceu logo depois, misturou inglês e português numa canção de imigrante que é tão comum por estes lados.

As filas para as tendas de comida como estas estendiam-se e serpenteavam pelo enorme espaço da feira do condado de Stanislaus, na primeira edição do Festival Português do Vale de São Joaquim. A organização esperava 10 mil pessoas; apareceram mais de 15 mil. À hora que os comediantes luso-americanos The Portuguese Kids entraram em palco, pouco depois das 17h45, não havia um lugar livre à sombra ou ao sol para ouvir as piadas sobre crescer numa casa de imigrantes portugueses. “Mommy can’t do this anymore, filho, eu faço tudo tudo tudo nesta casa”, dizia um deles, com uma peruca e sotaque açoriano.

Momentos antes, cantara-se o fado naquele palco; por todo o lado, bandeiras portuguesas hasteadas, bandeiras portuguesas à venda, bandeiras portuguesas nos chapéus de sol e nas mochilas de tecido, verde e vermelho nas t-shirts e galos de Barcelos nas luvas para o forno. “Obrigada por terem vindo!”, gritava o apresentador no palco principal, sempre numa lufa-lufa de microfone na mão, resplandecendo de orgulho pela casa cheia.

Neste dia de Abril que trouxe um sol quente primaveril, houve ranchos folclóricos a ressuscitarem costumes e bandas filarmónicas a marcharem entre as pessoas. Aquilo que em Portugal as gerações mais novas acham foleiro é celebrado por estes lados sem um pingo de desdém. Há uma saudade imensa de Portugal na Califórnia, uma saudade boa, que sorri e que perdura, numa dança eterna de amor pela pátria, que vive na língua e na comida. Mesmo aqueles que já nasceram em solo americano dizem que são portugueses, usam camisolas do Sporting ou do Benfica, salivam por pastéis de nata e malassadas e usam camisolas em que a palavra “Proud” tem as quinas da bandeira a preencher o “O”.

Em Turlock, uma cidade interior a duas horas de carro de São Francisco, 7,4% da população tem origem portuguesa. É um dos sítios onde mais facilmente se encontra um restaurante português ou se nota que o carro da frente tem um autocolante com a bandeira portuguesa na janela. Os apelidos dos vereadores e dos responsáveis dos distritos escolares são familiares: há Martins, Rocha, Pereira, Silva.

Por aqui não se discute se é Descobertas ou Descobrimentos ou se a Europa vai mais à frente. Regressa-se ao solo português não para matar a saudade, mas para a alimentar. Arrastam-se os amigos americanos, para que saibam que Portugal é grande, sempre o foi, mesmo quando os obrigou a emigrar, a eles ou aos pais ou aos avôs ou quem tenha sido, porque aqui não se perdem as origens não importa quanto tempo passe.

Na América toda a gente veio de todo o lado. É atrás desse rasto que vão as terceiras, quartas e quintas gerações, as que já só falam algumas palavras em português, as que vão às Portuguese Heritage Nights e às Festas com a bandeira às costas, as que vibram com a Selecção no Mundial mesmo que os Estados Unidos também joguem. É um fenómeno notável e inspirador. Dir-se-á que é mais fácil gostar de Portugal quando se está fora dele, longe dos primos na política e dos recibos verdes, mas eu acho que é mais que isso. É um amor patriótico que supera o solo, que parece estar na memória do sangue. Talvez seja assim noutras partes do mundo, mas eu estou aqui para contar o verde e vermelho que pulsa na Califórnia.

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