Opinião

A senhora Monopólio e a memória falhada

Sra. Monopólio

“Sra. Monopólio é o primeiro jogo de sempre em que as mulheres ganham mais que os homens", explica a Hasbro. Será boa ideia?

Tirando as pessoas que acham que a diferença salarial entre homens e mulheres se deve a factores etéreos como “experiência mais rica”, “auto-confiança” ou “menor probabilidade de saírem a correr no fim do expediente para irem buscar os miúdos ao colégio”, a desigualdade de pagamento que se baseia exclusivamente no género continua a ser um problema grave mesmo na maioria das economias desenvolvidas.

Grandes empresas como a Apple e a Google balbuciaram compromissos para reduzir a diferença, mas os relatórios anuais de diversidade continuam a mostrá-la. É um problema homogéneo, que atravessa sectores de actividade, países e culturas, dos Estados Unidos à França e de Portugal à Coreia do Sul. Quem estuda o fenómeno estima que, se nada for feito, o fosso de pagamento entre homens e mulheres só será eliminado dentro de 100 anos. Isto se a crise climática não acabar com a nossa miséria antes disso.

É neste contexto que o aparecimento do Ms. Monopoly ganha uma dimensão relevante. Em Setembro, a Hasbro lançou uma versão do seu icónico jogo de tabuleiro Monopólio dedicada às mulheres de sucesso no mundo dos negócios. Enquanto o Sr. Monopólio (o original) é um magnata do imobiliário, a Sra. Monopólio é uma investidora em mulheres empreendedoras e inventoras.

Nesta versão, as jogadoras recebem mais dinheiro que os jogadores no início do jogo – 1900 para elas, 1500 para eles, e amealham mais quando passam pela Casa de Partida, 240 para elas e 200 para eles. É uma situação que pretende retratar a desvantagem reversa que acontece no mundo real.

“Sra. Monopólio é o primeiro jogo de sempre em que as mulheres ganham mais que os homens, uma mudança divertida no jogo que cria um mundo onde as mulheres têm uma vantagem que normalmente é detida pelos homens”, explica a Hasbro. “No entanto, se os homens jogarem bem, também podem ganhar mais dinheiro.”

O propósito de “Sra. Monopólio” não é ser uma bandeira dos justiceiros sociais. A Hasbro diz que o jogo foi criado para “inspirar toda a gente, novos e velhos, ao destacar mulheres que desafiaram o status quo.”

É que, em vez de propriedades imobiliárias, o jogo tem invenções de mulheres que mudaram o mundo. Ao invés de construir casas, como na versão tradicional, o jogador constrói sedes de empresas. Entre as invenções incluídas estão o Wi-Fi, bolachas com pepitas de chocolate, aquecimento com energia solar e cintas modeladoras.

As regras desiguais são também uma forma de inspirar a discussão entre os jogadores. O que não fica claro é se esta é a melhor forma de o fazer. Porque nada neste jogo aborda os motivos pelos quais as mulheres são sistematicamente mais mal pagas, e fica a sensação de que têm de começar com mais dinheiro para poderem ser bem sucedidas. Porquê? São incompetentes?

No mundo real, as mulheres não são afastadas de promoções ou de bónus salariais por causa da sua competência nem do nível em que começaram. Ao longo das carreiras, vão sendo penalizadas em questões que nunca afectam os colegas masculinos – alguém ouviu falar do coordenador que foi demitido por ter sido pai? E são penalizadas também por comportamentos que, do outro lado da barricada de género, seriam vistos como positivos: a agressividade, competitividade, vontade de subir e pedidos de aumento não são vistos de forma igual entre mulheres e homens. Um estudo recente mostra precisamente isso.

Quando anunciou o jogo, a Hasbro ofereceu cerca de 20 mil dólares em notas reais a três jovens inventoras, uma de 13 e duas de 16 anos. A iniciativa, disse a directora global de marketing e estratégia Jen Boswinkel, foi tomada para “reconhecer e celebrar as muitas contribuições que as mulheres deram e continuam a dar diariamente à nossa sociedade.”

A ironia, dizem os críticos, é que os responsáveis da Hasbro esqueceram-se de mencionar que quem criou a primeira versão do jogo foi uma mulher. Chamava-se Lizzie Magie e em 1904 recebeu uma patente pelo “Jogo dos Senhorios”, de onde saíram regras que conhecemos hoje no Monopólio – desde a passagem pela prisão à compra de estações de comboios e à cobrança de renda pela passagem numa propriedade.

Relevante, também, é perceber que a equipa de gestão executiva da Hasbro é composta por sete homens e uma mulher, o que espelha de forma bem expressiva o status quo que este jogo pretende desafiar.

Era bom que em 2019 já não fosse preciso falar disto, mas eis que o progresso não é linear e ainda há muito caminho a percorrer para diminuir a desigualdade. Não apenas no mundo científico e dos negócios, mas em toda a linha. Talvez a equipa de gestão executiva da Hasbro beneficiasse de jogar o “Sra. Monopólio” antes das apresentações trimestrais.

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