Opinião

A solidariedade deve ter dois sentidos

Foto: EPA/PATRICK SEEGER
Foto: EPA/PATRICK SEEGER

A UE tem sido uma âncora para Portugal. É pois tempo de Portugal procurar o caminho de melhor governação e disciplina

Este artigo não é politicamente correto. Mas é verdadeiro.
Desde a adesão à Europa, Portugal beneficiou de cerca de 135 mil milhões de euros ao abrigo dos diversos programas de apoio, um valor equivalente a 65% do atual PIB português. E desde 1995 recebeu 119 mil milhões, tanto como o PIB cresceu desde esse ano, o que evidencia, pese assimetrias de comparação, um grave desperdício na aplicação. Salvou-se, até 1995, a boa utilização dos fundos em programas estratégicos, como o PEDIP, indutores de crescimento. Para provar o desperdício, o PIB per capita, em termos de paridade de poder de compra, regrediu, passando de 80,8% em 1995 para 77,3% em 2017.

São assim excessivas e infundamentadas as críticas à falta de solidariedade da UE e às reticências de países como Holanda, Alemanha, Áustria e Finlândia à emissão de eurobonds, ao ponto de se dizer “ou a UE faz o que tem de fazer (emitir eurobonds…) ou acabará”. Até porque esses países têm ainda 14 regiões com um PIB per capita inferior à média da UE em ppc, regiões onde vivem 20,7 milhões de pessoas (14,9 milhões de alemães e 5,8 milhões de finlandeses, holandeses e austríacos) que esperam maior apoio dos seus governos.

Todos eles são contribuintes líquidos da UE, a Alemanha com 17,2 mil milhões de euros, a Holanda com 4,9 mil milhões, a Áustria com 1,5 mil milhões e a Finlândia com 700 milhões (números de 2018). E Portugal é o quarto maior beneficiário líquido, com 3,1 mil milhões de euros.

Os fundos europeus de que Portugal vem beneficiando são provenientes, no grosso, daqueles países e também do Reino Unido, que conta com 30 zonas deprimidas entre as 41 em que se divide, o que pode ter constituído uma razão para a sua saída da UE. Muitos britânicos terão pensado que a contribuição dos cerca de 10 mil milhões de euros anuais deveria ser preferencialmente aplicada no seu país.
Com três resgates e tanto desperdício, mal nos fica falar em falta de solidariedade e censurar quem nos apoia.

A UE tem sido uma âncora para Portugal. É pois tempo de Portugal procurar o caminho de melhor governação e disciplina que os povos mais “frugais” percorreram, não delapidando os recursos suplementares de que vamos poder dispor. A solidariedade deve ter dois sentidos.

Economista

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