A tempestade que se avizinha: impacto do Covid-19 na economia mundial

A posição de empresas e governos no combate ao covid-19 vai determinar o embate.

Numa altura em que o número de novos casos na China é praticamente inexistente, a tendência mundial segue na rota oposta. Dos cerca de 81 000 casos registados no país onde o vírus se manifestou pela primeira vez, 69 000 já receberam alta, com apenas um novo caso no epicentro do Covid-19 (província de Hubei) no arranque desta semana (16 de março). No entanto, cerca de 160 países e territórios registam novos casos, numa média de mais de 12 000 por dia, e totalizando agora mais de 100 000 casos fora da China.

A China, pensando já num período de recuperação, começa a contabilizar o impacto que o Covid-19 teve na sua economia no primeiro trimestre de 2020. Alguns economistas chineses e também do JP Morgan Chase apontam para um crescimento negativo na ordem dos 4%.

No entanto, esta hemorragia económica não ficou contida às fronteiras do epicentro do surto que se iniciou na cidade de Wuhan. Ao contrário da epidemia de gripe (SARS) de 2003, que teve um efeito sobre o PIB chinês e mundial muito limitado e que foi rapidamente revertido, o cenário do novo SARS-Cov-2 é bem diferente.

Um estudo realizado pela McKinsey & Company em julho de 2019 mostra que, ao passo que a exposição da China ao mundo tem vindo a diminuir, a exposição do mundo à China é cada vez maior. Por exemplo, dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), Nações Unidas e Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) mostram que, a nível mundial, a China representa 16% do PIB, 13% do comércio internacional, 39% da produção e 18% das viagens e turismo (valores que representam 400% daqueles observados durante o surto SARS em 2002).

A paragem completa do país após a imposição de medidas rígidas de quarentena para travar a propagação do vírus levou a um golpe fatal em várias empresas e setores a nível mundial.

E assim começou o efeito bola de neve: quebras na expedição de unidades fabricadas geram quebras de stock e vendas; fabricantes automóveis como a GM, a Fiat Chrysler e outros foram forçados a encerrar operações noutros países por falta de partes para as suas linhas de montagem durante o mês passado; quebras nas vendas de empresas expostas ao consumo chinês em todos os setores (Apple, Adidas, Maersk, AirFrance-KLM, Procter & Gamble) levam a cortes nas projeções de vendas; por sua vez, essas projeções causam instabilidade nos mercados e levaram a que índices da bolsa, como Dow, S&P 500 e Nasdaq, registassem perdas e valores só vistos durante a crise financeira de 2008. A quebra de confiança nos mercados e instabilidade na China têm um efeito negativo também na banca que, por exemplo, levou o HSBC a anunciar cortes de 35 000 postos de trabalho e a liberar mais de 100 biliões de dólares (88,5 biliões de euros) em ativos. O receio da população em ser infetada e cancelamento de rotas ligadas à China terão um impacto de pelo menos 80 biliões de dólares (70,8 biliões de euros) no turismo mundial.

E estes são apenas fatores diretamente ou indiretamente relacionados com a paragem da China.

Com novas regiões afetadas a seguirem o exemplo da China para tentar combater o contágio, surgirão novos fatores de estrangulamento económico. Poucos serão os setores que conseguirão escapar ao inevitável, e para alguns não existirá a opção do trabalho remoto. Um exemplo é o do desporto-rei, o futebol. As recentes decisões de cancelamento ou adiamento de jogos de futebol da liga italiana (e quase todas as outras), entre outros fatores, levaram as ações da Juventus a perder 14% em apenas dois dias. As mesmas decisões pairam sobre várias ligas europeias e os clubes continuam a desvalorizar-se, seguindo a mesma rota da Juventus de Cristiano Ronaldo. Um estudo publicado hoje (17 de março) pela KPMG Football mostra que as perdas estimadas em caso de cancelamento das ligas Big Five – Premier League, La Liga, DFL Deustche Football Liga, Lega Serie A e Ligue de Football Professionnel – poderá ascender a 4 biliõesde euros.

Apesar de o número de casos em Portugal e a situação não se compararem ao panorama italiano, a instabilidade dos mercados mundiais também já causa danos no nosso país, com as taxas de juro da dívida pública a subir.

A par disso, a maior descida do preço do petróleo nos últimos 29 anos – resultado do atual desentendimento entre dois dos principais países produtores de petróleo (Arábia Saudita e Rússia) –, levaram à desvalorização das ações da Galp em 16,62%. Mas esta quebra não se traduz apenas em perdas para empresas produtoras como a Galp. Ainda que o futuro seja incerto, há uma elevada probabilidade de as exportações portuguesas para Angola e Brasil, duas das economias com relações comerciais com Portugal mais expostas à queda do petróleo, poderem estar sob ameaça. Em 2016, quando o barril também caiu para os 30 dólares, as vendas portuguesas retraíram-se.

Tudo isto, aliado a todas as conferências adiadas, voos cancelados e vendas reduzidas leva a que muitas oportunidades de negócio se percam devido ao Covid-19: contactos que agora já não se farão porque eventos como a maior feira de vinhos do mundo (em Dusseldorf) ou a BTL — Bolsa de Turismo de Lisboa foram adiados.

Também nesta semana, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), reviu em baixa as suas projeções de crescimento. Apesar de não haver números divulgados para Portugal, extrapolando o impacto da ordem do previsto para a zona euro, o crescimento do PIB português em 2020 vai ser o mais fraco desde 2014, ano em que a troika saiu do país.

Num cenário global, a diretora do FMI, Kristalina Georgieva, já afirmou que as previsões de crescimento global ficarão abaixo dos 2,9% - uma quebra não observada desde a crise financeira de 2008 - e que irão disponibilizar um fundo de 50 biliões de dólares (44,2 biliões de euros) para apoiar os países afetados. A Bloomberg Economics afirma que o custo pode ascender a 2,7 triliões de dólares (2,4 triliões de euros).

A economia mundial está a sangrar, no entanto usar a China como bode expiatório já não é uma premissa válida. O país está num caminho de recuperação, com uma previsão de crescimento de 15% no 2º trimestre, impulsionado por estímulos financeiros, consumo interno e recomeço das atividades industriais. A sua reduzida exposição face ao resto do mundo tornam a sua recuperação possível, mesmo que a situação se venha a agravar além-fronteiras. Num cenário mais pessimista, se a economia de alguns países estagnar devido às medidas de quarentena que são agora tidas como exemplo a seguir, a China poderá ter um crescimento menor no 2º trimestre pela quebra nas exportações, mas conseguirá ainda uma recuperação significativa suportada pelo seu consumo interno.

Falta agora perceber qual será a posição de empresas e governos no combate que se avizinha ou, em alguns casos, já chegou. Assegurar a saúde pública, controlar a propagação e arriscar danos colaterais à economia, ou ignorar a emergência atual, manter a livre circulação de bens e pessoas e arriscar tornarem-se num novo epicentro desta pandemia?

Ricardo Moreira reside na China desde 2013, tendo trabalhado para empresas estatais e multinacionais. Atua na área do sourcing estratégico num grupo industrial líder português (PECOL). Palestrante do TEDx em Shanghai, onde promove um programa de recrutamento nascido em Portugal (Pitch Bootcamp) que apoia jovens recém-formados a encontrar emprego, gosta de ler e escrever sobre as políticas de globalização da China.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de