A terra onde o negócio soa familiar

Não é a primeira vez que falo no México, tenho por hábito falar do que gosto e considero promissor. Por algum motivo, na sua revisão sobre economias emergentes, em 2007, a Goldman Sachs incluiu este país entre as principais referências do Next Eleven (N-11), ou seja, no grupo de nações a rivalizar com o G-7 e que, em 2050, iriam liderar a produção de riqueza a nível global. Sobre o futuro, ninguém sabe, apenas podemos fazer projeções. Mas, neste caso, são justificadas.

O PIB do México tem subido acentuadamente desde a transição do século. Mesmo com a regressão de 2020 (ano pandémico) somou 1.076 triliões de dólares, sendo que, para os anos de 2021 e 2022, a OCDE prevê um crescimento entre os 3% e os 5%. Aliás, basta um olhar transversal para o ranking das 500 maiores empresas a operar no país para entendermos o porquê destes augúrios tão generosos.

No setor da energia, quem domina é a Comisión Federal de Electricidad (CFE), embora as espanholas Iberdrola e Naturgy tenham uma palavra a dizer. Já no petróleo e gás, é a PEMEX - Petróleos Mexicanos. Claro está que se trata de empresas públicas, ou mistas, mas não deixam de ser locais.

Na área de alimentos e bebidas, deparamo-nos com os grupos Bimbo, Coca-Cola FEMSA, Arca Continental, SIGMA e GRUMA. Na agroindústria, com a Bachoco (aves, ovos, rações) e a SuKarne (carne bovina, suína, frango). No comércio departamental, a Coppel, a Liverpool e as Tiendas Elektra. No comércio de medicamentos, a Coporativo Fragua, a FEMSA (Salud) e as Farmacias del Ahorro.

Quanto à exploração de minérios, prevalece a Americas Mining Corporation e a Peñoles. Nos cimentos, a CEMEX. Na Construção, a CICSA (Carso Infraestructura y Construcción, S.A), sob a presidência de Carlos Slim Domit, filho do magnata Carlos Slim Helú. Também da mesma família, nas telecomunicações impera a América Movil, a anos-luz da concorrência, com uma faturação anual de 51 biliões de dólares.

Naturalmente, nem todas as áreas são dominadas por empresas locais. Por exemplo, a americana General Motors e a holandesa Stellantis dominam o fabrico de automóveis. Não obstante, mesmo nos casos em que as empresas mexicanas não lideram, estas impõem ao mercado uma forte concorrência.

Por exemplo, na eletrónica de consumo, a Mabe fatura anualmente 3.5 biliões de dólares, superada apenas pela coreana Samsung (4 B/ano). Na hotelaria e turismo, logo atrás da AMResorts (EUA) está o grupo Vidanta, seguido do Posadas e Pueblo Bonito. Enquanto na siderurgia e metalúrgica, o aparente reinado das multinacionais Ternium e a ArcelorMittal, ambas residentes no Luxemburgo, é destronado pela faturação conjunta das quatro principais companhias mexicanas: Villacero, DeAcero, Industrias CH e Simec.

Ora, existem várias causas para este fenómeno. Mas, se tivesse de escolher uma, salientaria a família. Ou melhor, a empresa familiar. Enquanto nos EUA a economia é essencialmente corporativa, no México, 9 em cada 10 empresas são familiares. É aqui que reside o segredo da resiliência e consequente sucesso da economia mexicana. Pois, o conceito não se aplica somente a negócios de subsistência - restaurantes, cafés, residenciais (como também vemos em Portugal) - mas a todo o tecido produtivo do país, desde a taquería da esquina às mais poderosas holdings e multinacionais de impacto global.

Vejamos alguns exemplos:

-- O Grupo José Cuervo ($1.75 B/ano) fabrica uma das mais famosas tequilas do mundo sob a direção e propriedade dos Beckmann, há 11 gerações;

-- Os grupos Salinas ($7.8 B/ano), Elektra e TV Azteca pertencem à família hoje representada pelo magnata Ricardo Salinas Pliego;

-- Os Bailléres Gual detêm nada menos que o grupo BAL ($11 B/ano), um aglomerado de empresas que abarca comércio, energia, metalurgia, finanças, entre outros setores;

-- O Grupo México, com $11.7 biliões de receitas anuais em exploração mineira, transportes e infraestruturas, pertence ao seu fundador, o CEO Germán Larrea Mota-Velasco e respetiva família;

-- Os Servitje Montull são donos de mais de um terço do Grupo Bimbo ($16.5 B/ano), talvez a maior referência mundial no fabrico de pão, com cerca de 100 marcas distribuídas por 33 países;

-- Por fim, a inevitável família Slim Domit detém, entre outros investimentos, o Grupo Carso ($4.74 B/ano) e a América Movil ($51 B/ano), tendo como figura central uma das maiores fortunas mundiais, Carlos Slim Helú.

No que concerne as zonas e regiões, o melhor é começar pelo Sul. Não tanto pela sua riqueza económica, mas pelas culturas indígenas. Em particular, no Estado de Oaxaca, onde ficam os sítios arqueológicos de Monte Albán e Mitla; e no Estado de Yucatán, onde podemos visitar as ruínas de Chichén Itzá, ex-libris da civilização maia. Relativamente perto, já no Estado de Quintana Roo, ficam duas das 27 praias mais populares do mundo, segundo os registos do Instagram: Playa Paraiso (Tulum) e Playa Norte (Isla Mujeres, Cancun).

O elemento-chave da economia sul-mexicana é, sem dúvida, o turismo. A partir de Quintana Roo operam a AMResorts (USA), Playa Hotels & Resorts (Holanda) e Meliá Hotels International (Espanha). Todavia, nem só de praia vive o Sul. Em Mérida, Yucatán, está sediada a Bepensa, que vende $872 MM/ano em bebidas e alimentos. E na Ciudad del Carmen, Campeche, fica o Grupo CEMZA ($235 MM/ano), que presta serviços à indústria petrolífera.

O centro do país é absorvido pela Área Metropolitana do Vale do México, a maior da América do Norte e a 5ª maior do mundo, com aproximadamente 21.6 milhões de habitantes e um PIB de 200 biliões de dólares. Entre as 50 maiores companhias do país, 31 estão sediadas na Cidade do México (CDMX), sendo que 7 estão no Top-10. Nomeadamente, a PEMEX-Petróleos Mexicanos (47.8 B/ano), a CFE-Comisión Federal de Electricidad ($25.2 B/ano) e o Grupo Bimbo ($16.5 B/ano), lideradas pela América Movil ($51 B/ano), que se destaca no primeiro lugar. Quanto a sucursais estrangeiras, ainda no Top-10 estão as gigantes americanas, Walmart ($31.7 B/ano) e General Motors ($20.8 B/ano), à frente da financeira espanhola BBVA ($13.6 B/ano). Todas residentes na CDMX.

Fora da Greater Mexico City, há várias outras cidades e federações centro-mexicanas que merecem, pelo menos, uma referência. Por exemplo, o Estado de Veracruz, onde se situa o grupo retalhista Chedraui ($7.3 B/ano), ou o Estado de Jalisco, que alberga a cidade de Guadalajara, sede do Corporativo Fragua / Farmácias Guadalajara ($3.6 B/ano).

Voltando aos aspetos culturais, o Centro distingue-se por ser a região que mais herdou o estilo de vida espanhol. Janta-se tarde e cultiva-se o petisco, as tapas, as botanas, os cueritos, a cerveja, em suma, a boa vida. Não que tal não se verifique no Norte, mas há uma diferença fundamental. As cidades nortenhas já quase têm um pé nos EUA, e isso também se reflete na mentalidade. Com efeito, o Norte do México espelha cultural e socialmente a sua maior vantagem, que é poder beneficiar do melhor de dois mundos. Por um lado, a região ainda desfruta de uma relativa proximidade com a Área Metropolitana da CDMX, uma autêntica metrópole global. Por outro, convive além-fronteiras com a maior economia do planeta.

Talvez estes fatores expliquem a dinâmica económica do Norte. Em particular, do Estado de Nuevo León e respetiva capital, Monterrey. Aliás, é precisamente lá que residem três das 10 maiores companhias mexicanas:

-- FEMSA, com receitas a rondar os 25 biliões de dólares, fruto de uma sólida presença no retalho (Oxxo), na alimentação e bebidas (Coca Cola FEMSA), nos medicamentos (FEMSA división salud) e na comercialização de petróleo e gás (Oxxo Gas).

-- CEMEX ($13.9 B/ano), nada menos que a 3ª maior cimenteira mundial.

-- ALFA ($13.2 B/ano), o conglomerado que tem como subsidiárias empresas como a Alpek ($5.7 B/ano), líder nacional na indústria química. Bem como a Sigma ($6.8 B/ano), uma das principais indústrias alimentares e actual detentora da Nobre, marca bem conhecida dos portugueses.

Com base em Monterrey, estão igualmente o Grupo Financiero Banorte ($9.98 B/ano), o segundo maior do país, logo atrás do BBVA México. E a retalhista Soriana ($7.8 B/ano), que compete com a FEMSA Comercio (Oxxo).

Por fim, convém esclarecer que o Norte não se fica apenas pelo Estado de Nuevo León. Na cidade de Culiacán (Sinaloa) temos, por exemplo, o Grupo Coppel ($9.4 B/ano), também retalhista. Em Gómez Palacio (Durango), o Grupo Lala ($4 B/ano), no setor dos alimentos e bebidas. Em Monclova (Coahuila), a siderúrgica Altos Hornos de México ($1.3 B/ano). Em Saltillo - cidade que hospedou a seleção portuguesa no Mundial de 1986 - o Grupo Industrial de Saltillo ($799 MM/ano). E em Torreón, a concessionária de automóveis Surman ($714 MM/ano), uma das mais relevantes no mercado interno.

São muitas companhias, muitos grupos, muitos biliões. Esta é a dimensão do México. Penso que a mensagem não podia ser mais clara. Mas, se dúvidas houver, apresento mais um dado... ou talvez dois.

Primeiro: Na lista das 500 empresas a operar no país, a sucursal portuguesa da Mota-Engil ($192 MM/ano) ocupa o 437º lugar. E mesmo assim, está de parabéns. Nem que seja por ser a única, certo? Quantas mais empresas portuguesas, e quantos profissionais altamente qualificados, poderiam igualmente desfrutar da 15ª maior economia do mundo?

Segundo: Entre 2020 e 2021, enquanto Portugal obcecava com a pandemia, surgiram três unicórnios mexicanos: A Kavak, start-up de compra e venda de automóveis usados, hoje avaliada em $4 biliões; a Bitso, bolsa de criptomoedas, avaliada em $2.2 biliões; e a Clip, plataforma de pagamentos, avaliada em $2 biliões.

Talvez seja precisamente isto o que tanto nos separa da terra dos mariachis, é que lá a palavra negócio ainda soa a qualquer coisa familiar.

João AB da Silva, economista e investidor

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