A troika é mesmo uma agiota?

Merkel e Passos
Merkel e Passos

Mais de metade do nosso défice público vai para pagar juros?
Sim. A Polónia não paga cerca de metade do que nós pagamos em
juros em percentagem do PIB? Sim. Se pagássemos menos juros,
podíamos cancelar todos os aumentos de impostos dos últimos dois
anos? Provavelmente. Logo, a taxa de juro que os “amigos”
da troika nos cobram é abusiva e um fardo pesado sobre o nosso
orçamento? Nem pensar.

Os juros que pagamos são o produto da taxa de juro vezes a dívida
que temos. A Polónia vai pagar aproximadamente a mesma taxa de juro
do que nós em 2012, cerca de 4,1%. Só que a dívida deles é metade
da nossa.

O nosso problema não é a taxa, que até está abaixo da média
em democracia antes de entrarmos no euro. O problema está na dívida
que é enorme. O grande obstáculo orçamental não está nos termos
do acordo com a troika, está antes nos défices que acumulámos
durante anos a fio. Se o dinheiro vai hoje para pagar juros e não
sobra para pagar pensões e salários, não é por causa da taxa de
juro, mas das pensões e salários a mais que pagámos no passado.

Para além disso, a taxa de juro que pagamos à troika são só
cerca de 3,2%. Os credores privados é que cobram muito mais,
resultando numa média de 4,1%. A troika é o nosso credor mais
generoso.

O ataque aos juros não para aqui. Então, se a França está a
pedir emprestado a uma taxa de 2,1%, e a Alemanha a 1,4%, não estão
a lucrar à nossa custa? Porque é que os alemães não pedem
dinheiro emprestado a 1,4% e o emprestam aos portugueses a uns 2%,
ficando todos mais ricos? Não, não, não.

A Alemanha já faz isto, todos os meses. Criou-se uma agência, o
EFSF, que pede emprestado para poder emprestar aos portugueses.
Crucialmente, ela faz isto em nome dos alemães, franceses e outros
europeus, e com o seu explícito aval e garantia. Qual é a taxa de
juro que os mercados cobram ao EFSF? 3,2%, precisamente o mesmo que o
EFSF nos cobra a nós. Ninguém na Europa está a lucrar à custa do
empréstimo a Portugal.

Então, porque é que a taxa cobrada ao EFSF é maior do que a
cobrada à Alemanha? Essencialmente por duas razões. Primeiro,
porque o EFSF pede emprestado não só em nome da Alemanha, mas
também da Bélgica, de Itália ou de Espanha. Espanha neste momento
paga 5,3% de taxa de juro pelos seus empréstimos e Itália 4,6%. A
taxa de juro de 3,2% é a taxa europeia e é a Europa, não a
Alemanha, quem nos empresta fundos através da troika. Segundo,
porque quando eu empresto dinheiro à Alemanha, sei com o que conto.
Já a política europeia tem sido tão inconstante que o que é hoje
verdade sobre o EFSF pode mudar amanhã.

Se nem a troika nem os países são os agiotas, os culpados devem
ser os bancos. Então o BCE não empresta a 0,75% aos bancos? Porque
é que eles não emprestam a Portugal a essa taxa? Se tivéssemos um
banco central que pudesse imprimir escudos, como Inglaterra tem hoje,
não teríamos juros mais baixos? Não, disparate outra vez. Mas a
explicação fica para a próxima semana.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, Nova Iorque

Escreve ao sábado

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