A vítima colateral

A última sondagem sobre intenções de voto dos portugueses
encerra mudanças bruscas no eleitorado e ajuda a interpretar a
situação atual. O centro-direita (PSD + CDS/PP) derreteu na
fornalha da austeridade: já nem atrai um terço das intenções de
voto (31%).

A medida da TSU revela-se catastrófica em termos
eleitorais. Não haverá modulação que lhe valha. O princípio de
uma transferência permanente de rendimento do trabalho para reduzir
custos das empresas é simplesmente repugnante e inaceitável para
eleitores de qualquer quadrante político. A quebra em um terço das
intenções de voto no PSD (de 36% para 24%) tem, seguramente, a ver
com isto.

Acontece que o afundamento à direita só beneficia por inércia o
PS (que também recua, marginalmente). Passa agora a exibir os mesmos
31%, que a coligação no poder. A sua proposta de “austeridade
inteligente” é coisa que não se sabe bem o que seja, embora surja
como algo que não há-de poder ser tão estúpido (politicamente)
como aquilo que o Governo nos propõe para 2013.

Fora deste terreno central da governabilidade em Portugal, duas
outras realidades se perfilam com dimensão assinalável. Uma, a
esquerda que rejeita o programa de estabilização, agrega, agora, um
quarto das intenções de voto (PCP, 13% + BE, 11%). A outra, a dos
votos brancos e nulos, igualmente com 24%, nunca atingira uma tal
dimensão entre nós. Perante uma recessão que agora se prevê
estendida por inéditos 3 anos, com a vida a andar sempre para trás,
há cada vez mais cidadãos em desespero a recusar a via do acordo de
assistência com o trio UE/BCE/FMI e, com ela, a crença no potencial
regenerador da democracia representativa através do voto.

Falta uma clara alternativa à esquerda, capaz de gerar estímulo
ao investimento produtivo e ao emprego, à poupança das famílias e
à frugalidade e eficiência dos serviços públicos. Sem ela, o que
temos surge como insuportável. E uma parte robusta dos que colocaram
esta maioria e, por extensão, este Governo no poder com o seu voto
acabam por questionar-se se ainda valerá a pena tentar mudar o
estado a que isto chegou, confiando numa outra força política. A fé
na democracia é a mais preciosa vítima colateral desta interminável
recessão.

Redator principal

Escreve à sexta-feira

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